  Amor de Perdio
    (Penny Jordan)
Copyright (c) 1998 by Penny Jordan
Originalmente publicado em 1998 pela Silhouette Books, diviso da Harlequin Enterprises Limited.
Ttulo original: One night in his arms
Copyright para a lngua portuguesa: 1999  EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Digitalizao: Polyana
Reviso: Simone



       RESUMO: Ainda envergonhada pela paixo adolescente por Ranulf Carrington. Sylvie sabia da importancia de faz-lo compreender que voltariam a se encontrar
de igual para igual. Faria o possvel para se manter fria e distante. Afinal, as palavras cruis proferidas por Ran quando de seu ltimo encontro haviam banido todo
o amor que sentia por ele. Por isso, tudo o que teriam seria um relacionamento estritamente profissional! Isto,  claro, se seu corao permitisse!


       PRLOGO
       O que est fazendo, Sylvie? Que espcie de jogo est tramando agora? - indagou Ran, furioso.
       - No  um jogo. Eu quero...
       - Oh, sei exatamente o que quer: levar-me para sua cama. Mas neste exato momento eu sinto vontade de dar-lhe uma surra, sabia? Seu irmo  um dos meus melhores
amigos, alm de meu chefe.
       -  Isso no tem a ver com Alex - protestou Sylvie. - Envolve apenas ns dois.
       -  No h "ns dois" nessa histria. Voc  apenas uma estudante. E eu sou um homem adulto.
       - Mas eu o amo!
       - E mesmo? - zombou Ran. - E quanto? Tanto quanto o astro de msica pop pelo qual voc estava pronta para morrer h seis meses?
       - Isso foi antes de eu crescer.
       Rapidamente, ela cruzou a distncia que os separava, pegando-o despreparado. Colou o corpo ao dele e entrelaou os dedos atrs do pescoo de Ran, a fim de
evitar que se afastasse.
       - Por favor... - implorou, erguendo o rosto, os lbios trmulos. Sentiu o corpo de seu amado estremecer e, encorajada, juntou os lbios aos dele.
       - Ran! - gemeu, apaixonada.
       Subitamente, ele ergueu os braos e a enlaou. Os dedos apertavam firmemente os braos macios. Sylvie sentiu a cabea girar e os joelhos enfraquecerem. Seu
corpo ardia e pulsava.
       Amava-o tanto... Queria-o demais. Queria desesperadamen-te que fizessem amor. Estava apaixonada perdidamente por
       Amor de Perdio
       ele, com todo o ardor e intensidade de seus dezessete anos. Mas Ran a rejeitara o tempo todo. Agora, porm, l estava ele, abraando-a, beijando-a... Querendo-a.
       Ansiosa, abriu a boca, convidando-o a aprofundar o beijo. Mas ento, abruptamente, Ran a empurrou, o rosto enrijecido pela raiva.
       -  O que h de errado?
       -  O que h de errado? O fato de voc precisar fazer essa pergunta mostra que ainda  uma criana. Sinto muito. Jamais devia ter feito isso.
       - Voc me beijou - protestou com voz fraca. - Voc me quis.,.
       - No. O que eu queria no era voc, mas o que me oferecia.
       - Deteve-se e balanou a cabea em desalento. - Voc ainda  uma criana.
       - No sou uma criana, e posso provar.
       -  Tem idia do que est sugerindo?
       -  Quero voc. Eu o amo.
       - Bem, pois eu tenho certeza de que no a quero nem amo. E deixe-me dar um pequeno aviso: se continuar se oferecendo aos homens, mais cedo ou mais tarde algum
vai aceitar sua oferta. E garanto que a experincia no ser agradvel. Voc  jovem demais para conhecer o sexo. - Passou a mo pelos cabelos castanhos, em um gesto
nervoso. - Sou um homem, no um garoto. E digamos que levar uma virgem muito excitada e inexperiente para a cama e brincar de tocar aqui e acol com ela no seja
minha idia de um relacionamento particularmente satisfatrio.
       - Encarou-a. - Encontre algum de sua idade com quem brincar. Por um momento Sylvie sentiu-se tentada a protestar, discutir e implorar. Ou at mesmo jogar-se
de volta queles braos e provar do que seria capaz, a despeito de sua idade e falta de experincia. No aceitava a derrota com facilidade, mas algo profundo, uma
nova sensao de feminilidade, recusava-se a enfrentar mais uma rejeio. Ento, engoliu as lgrimas, ergueu a cabea e o fitou.
       -  Sim, acho que encontrarei.
       Um brilho especial iluminou seus olhos. Percebeu que Ran comeava a franzir a testa.
       -  Sylvie...
       Irada, ela se recusou a ouvi-lo. O brilho delicado de seu amor recm-descoberto j mudava para o tom opaco do ressentimento. O orgulho tomara o lugar da ternura.
       Como gostaria de odiar aquele homem!

       CAPTULO I
       Voc no est falando srio... Sylvie franziu a testa ao analisar a sinopse que seu chefe acabara de lhe entregar.
       Lloyd Kelmer IV era a espcie de bilionrio excntrico que apenas devia existir em contos de fadas. E ela lhe fora apresentada em uma festa. Na poca, fazia
pouco que deixara a faculdade e se mudara para Nova York. Comearam a conversar e Lloyd lhe contou sobre as dificuldades que experimentava ao tocar a gigantesca
e lucrativa empresa criada por seu av.
       Sylvie ficara interessada no que ele falara, mas mesmo assim surpreendera-se ao receber, poucos dias depois, no apenas um telefonema dele como a oferta de
um emprego para que fosse sua assistente pessoal.
       Sylvie acabou aceitando o emprego. Seu trabalho era variado e fascinante. Mal lhe dava tempo para respirar, quanto mais para relacionamentos afetivos. Mas
aquilo no a preocupava. Sylvie percebeu que Lloyd a fitava com expectativa.
       Ao longo dos anos, ela desenvolvera uma fora de vontade frrea, muita determinao. Amava seu trabalho e acreditava que Lloyd e a Trust mereciam toda a sua
dedicao.
       Apreciava imensamente observar as casas que Lloyd resgatava, para lhes devolver a formosura de outrora. Talvez fosse idealismo, uma tolice romntica de sua
parte, mas havia algo especial naquele processo. Entendia o que motivava Lloyd.
       Suspeitava de que, ironicamente, o esquema de conservao em que trabalhara tanto tempo atrs, sob a superviso de Ran, despertara nela a constatao de quo
importante era preservar, cuidar e proteger a arquitetura de uma regio. Isso fazia com que partilhasse da paixo do chefe pela tarefa.
       Entretanto, sua responsabilidade como funcionria da Trust inclua no apenas partilhar do entusiasmo de lloyd, mas certificar-se de que as aquisies estavam
bem fundamentadas e corriam de maneira profissional. Devia garantir que o dinheiro da companhia fosse usado da melhor maneira possvel, no desperdiado.
       -  Voc no aprova, no  mesmo? - indagou Lloyd, balanando a cabea tristemente. - Espere at v-la. Vai adorar.  um perfeito exemplo de...
       - Estamos bem prximos do limite do oramento deste ano.
       -  E da? Basta aumentar a verba.
       - Voc est falando de um aumento de milhes de dlares! A Trust...
       - Eu sou a Trust - Lloyd a fez lembrar-se com gentileza. - Estou fazendo o que sei que o velho homem gostaria que eu fizesse...
       -  Comprando uma construo neoclssica decadente no meio de Derbyshire?
       - Voc vai adorar, prometo.
       Sylvie estava tentada a lhe dizer que andava ocupada demais e que ele teria de encontrar outra pessoa para tomar conta daquele projeto. Mas seu orgulho, o
mesmo que a fizera manter a cabea erguida e o esprito forte aps a rejeio de Ran e no decorrer de tudo o que se seguira, recusava-se a lhe permitir fazer. isso.
       Dessa vez ela e Ran estariam se encontrando em patamares iguais. Como adultos. Afinal, a casa que Lloyd queria comprar era dele! E ento...
       E ento o qu?
       Bem, dessa vez no deixaria que ele a magoasse. Sua atitude seria fria, distante e totalmente profissional. Dessa vez...
       Sylvie fechou os olhos ao sentir algumas pontadas de apreenso. Vira Ran pela ltima vez quando ele aparecera inesperadamente no aeroporto, trs anos atrs.
Na ocasio, ela estava deixando a Inglaterra para terminar os estudos nos Estados Unidos.
       Ainda podia se lembrar do espanto ao v-lo ali; o choque e a sensao doce de prazer e carinho. Vulnervel e ingnua, imaginou que talvez Ran tivesse mudado
de idia. Mas no mudara. Fora at l apenas para se garantir de que ela estava realmente deixando o pas. E sua vida.
       Agora ela estaria em posio superior. A ele caberiam as splicas. Sylvie teria fora para recusar-lhe o que queria. E ento Ran teria de lhe implorar para
ser atendido.
       Imediatamente Sylvie abriu os olhos. O que a havia tomado? Aquela espcie de pensamento vingativo era to tolo e adolescente quanto fora sua declarao para
Ran.
       Estava acima de coisas assim. Precisava estar, era uma exigncia de seu trabalho.
       No, no faria distines entre Ran e os outros clientes. Com orgulho, ergueu a cabea e continuou a ouvir o relato entusiasmado de Lloyd sobre as virtudes
de seu mais recente "achado".
       Ran contemplou a sala sem moblia, empoeirada e cheia de teias de aranha de Haverton Hall. O cheiro da negligncia traduzia-se no aroma desagradvel de mofo
pairando no ar de fim de tarde.
       O grande ambiente, em comum com o restante da construo, tinha um clima de desolao que o fazia lembrar-se do tio-av idoso que fora dono da propriedade
quando Ran era menino.
       Visitas para v-lo sempre eram detestveis. Ironicamente, podia lembrar-se de quo aliviado ficara em descobrir que no fora ele e sim seu primo mais velho
que herdara a responsabilidade pela casa enorme, vazia e maltratada.
       Atualmente, entretanto, aquele primo estava morto, e ele, Ran, era o dono de Haverton. Ou pelo menos fora at uma semana atrs, quando finalmente assinara
os papis que tornaram legal a transferncia da propriedade e de todos os problemas para as mos de Lloyd Kelmer.
       Sua reao inicial ao receber a indesejvel herana fora fazer uma pesquisa para ver se alguma instituio britnica poderia ser persuadida a tomar conta
do lugar.
       Mas, como seus representantes lhe explicaram, isso seria impossvel naquele momento. Encarar a possibilidade de observar a casa e as terras mergulhadas em
um processo maior de decadncia seria horrvel.
       Ento Alex mencionara a existncia de um excntrico bilionrio norte-americano cuja vocao era comprar e restaurar velhas propriedades, para depois abri-las
 visitao pblica. Ran nem perdeu tempo em entrar em contato com ele.
       Para seu imenso alvio, Lloyd fora  Inglaterra analisar a casa e prontamente declarara que a havia adorado.
       O alvio se transformou em algo muito diferente, entretanto, quando Ran recebeu um fax de Lloyd avisando-lhe dj! que sua assistente, a srta. Sylvie Bennett,
estaria voando  Gr-Bre-tanha para agir como sua representante no trabalho de reforma da propriedade.
       Ele poderia, claro, simplesmente ter escolhido dar as costas, afastar-se e deixar que outra pessoa lidasse com Sylvie. Mas no era assim.
       Se tinha um trabalho a ser feito, preferia cuidar da tarefa sozinho, no importava quo indesejada ou potencialmente problemtica pudesse ser.
       Potencialmente problemtica! Um sorriso amargurado curvou seus lbios. No havia nada de potencial nos problemas que Sylvie lhe causara. Absolutamente nada.
       Ouvira algo a respeito dela ao longo dos anos, claro. A maior parte das informaes vinham de Alex e Mollie. Sylvie completara a universidade e o mestrado
com louvor... Sylvie estava morando em Nova Iorque e procurando emprego... Sylvie conseguira um emprego... Sylvie trabalhava em Veneza... Em Roma... Em Praga...
Sylvie... Sylvie... Sylvie...
       Alex e Mollie no eram suas nicas fontes de informaes. No inverno anterior, em Londres, encontrara-se inesperadamente com a me de Sylvie, madrasta de
Alex, do lado de fora da Harvey Nichols.
       Belinda o cumprimentara com entusiasmo pela recente ascenso  nobreza. Era a pessoa mais esnobe que Ran conhecia.
       Ele ainda se lembrava de quo amargamente a senhora se opusera ao pedido de Alex, aps a morte do pai, para que Sylvie ficasse no Otel Place com ele em vez
de ser enviada a um colgio interno.
       -  Sylvie no pode morar com voc, Alex - alegara. - Simplesmente no seria apropriado. No h, afinal, laos sanguneos entre vocs. So irmos apenas como
consequncia de meu casamento com seu pai. E, alm disso, ela tem passado tempo demais com pessoas erradas.
       Ran, que estivera em p do lado de fora da biblioteca de Alex enquanto a conversa acontecia, virara-se e estivera prestes a se afastar quando, para seu desgosto,
subitamente ouviu seu prprio nome ser mencionado.
       Alex falara  madrasta:
       - Que espcie de pessoas erradas?
       -  Bem, Ran, a princpio. Oh, sei que ele  um de seus amigos, mas  apenas um empregado e...
       Alex imediatamente explodira, informando  madrasta:
       - Ran, alm de amigo, vem de uma famlia mais tradicional que a nossa.
       -   mesmo? - fora a resposta cida. - Pode ser, mas mesmo assim no tem dinheiro. Sylvie corre perigo ao ligar-se a ele. Isso pode arruinar sua reputao,
e prejudic-la da hora de conseguir um casamento correto.
       -  Um casamento correto? - rebatera Alex furiosamente. - Em que sculo voc est vivendo?
       - Sylvie  minha filha e de jeito nenhum eu a quero misturada com empregados. Isso inclui Ran. E, j que estamos nesse assunto, Alex, acho que, como irmo
por afinidade, voc tem a responsabilidade de proteg-la de amigos... inadequados.
       Ran ainda se recordava da amargura e da fria que sentira. E da humilhao tambm.
       Depois daquilo, decidira manter distncia de Sylvie, embora ela no tivesse tornado isso particularmente fcil. Ran tinha vinte e sete anos na ocasio, dez
a mais do que ela. Um homem enquanto Sylvie era apenas uma criana.
       Uma criana... Uma criana que lhe dissera de modo apaixonado que o amava e que o queria. Uma criana que exigira de maneira ainda mais intensa que seu amor
fosse correspondido, que fizesse amor com ela... que lhe mostrasse, lhe ensinasse, a dominasse...
       Ainda se lembrava de como Sylvie o desafiara, jogando-se em seus braos, pressionando os lbios delicados contra os seus...
       E ento ele conseguira resistir. Apenas daquela vez.
       Sylvie sempre fora intensa em tudo o que fazia. No era de estranhar que o amor que sentira por ele tivesse se tornado algo to avassalador.
       E, agora, ela estava prestes a retornar. No apenas para a Inglaterra, mas para aquele lugar, Haverton, seu lar... sua vida.
       Como estaria? Linda, claro. Belinda lhe contara.
       - Voc sabe, obviamente, que Sylvie est trabalhando em Nova York, para um trilionrio - dissera alegremente, sorrindo de satisfao. - Ele est totalmente
embasbacado por minha filha - acrescentara.
       Embora no tivesse dito com todas as letras, Ran tivera a distinta impresso de que o relacionamento de Sylvie com Lloyd ultrapassava as convenes entre
patro e empregada.
       Ficara chocado, mais tarde, quando conhecera Lloyd e constatara que era bem mais velho que Sylvie. Mas aconselhara-se a manter-se alheio. Se ela escolhera
ter como amante um homem muito mais idoso, isso era problema dela e de ningum mais.
       Sylvie... Em mais algumas horas ela estaria ali.
       - Eu o desprezo, Ran, eu o odeio - ela lhe disseja com os dentes cerrados quando partira para Nova York. - Eu o odeio!
       Dissera isso quase com a mesma paixo com que uma vez declarara seu amor por ele. Quase com a mesma intensidade.
       CAPTULO II
       A dez quilmetros do destino final, Sylvie desviou o carro que alugara no aeroporto para o acostamento e desligou o motor. No tinha dvidas quanto ao caminho
a seguir. Nem mesmo queria absorver a beleza da paisagem campestre de Derbyshire, magnfica e aquecida pelo sol do meio de tarde.
       No, a razo de ter parado era outra. Estava cada vez mais sensvel. As mos midas contra o volante traam a crescente agitago que a dominava, e os nervos
 flor da pele.
       Quando finalmente encontrasse... se confrontasse... com Ran, gostaria de estar calma, no controle de si mesma e da situao. No mais o contemplaria como
fizera quando adolescente idealista e perdidamente apaixonada.
       Agora era uma mulher adulta. Com um trabalho a executar. No permitiria que sentimentos pessoais afetassem seu julgamento e profissionalismo.
       Aos olhos de outras pessoas, seu trabalho podia parecer uma aventura invejvel. Viajar pelo mundo, morar e respirar o ar de alguns dos mais belos monumentos
histricos, estar  frente dos melhores profissionais em restaurao. Era, entretanto, mais do que isso.
       Lloyd lhe colocara a situao de maneira admirvel no ano anterior, quando da avaliao do trabalho finalizado no palcio de Veneza.
       Sylvie no apenas possua olho apurado para detalhes, harmonia e cores, como tambm podia antecipar mentalmente o resultado final, respeitando estritamente
os padres originais do imvel.
       Era muito atenta e prtica, e esse lado de sua natureza garantia que cada projeto fosse concludo no tempo acertado e dentro do oramento.
       Isso envolvia horas e horas de anlise de custos, visitas a lojas de tecidos e mveis e, em muitos casos, tambm significava encontrar trabalhadores para
produzir peas especiais.
       A Itlia e a Inglaterra eram lugares repletos desses profissionais. Sylvie ficara surpresa com a prpria habilidade em barganhar prazos de pagamento e obter
o que queria, ao preo que considerava justo.
       Isso fazia, com frequncia, que tivesse de mostrar-se extremamente firme, no apenas com os fornecedores como tambm com os donos originais ds propriedades,
os quais mantinham laos afetivos com as casas e queriam dar opinio em tudo.
       Oh, sim, Sylvie estava acostumada a lidar com proprietrios de temperamento difcil e situaes nas quais tinha de usar tanto pacincia quanto tato para garantir
que o orgulho de ningum fosse ferido.
       Era uma tarefa muito especial caminhar entre o limite de no magoar um dono sensvel e ao mesmo tempo garantir a restaurao dentro dos padres aceitos por
Lloyd.
       Mas dessa vez no estavam em jogo apenas os sentimentos de um proprietrio. No, dessa vez a pessoa cujas emoes teriam de ser tratadas com extremo cuidado
era ela mesma.
       Fechou os olhos, respirou profundamente diversas vezes e ento voltou a abri-los. Secou as mos em um leno de papel e deu a partida no carro.
       Alugara um modelo quatro portas. Ao estudar os planos e os papis que Lloyd lhe dera, percebera ser til viajar pelo terreno acidentado que rodeava Haverton
Hall com um modelo mais resistente.
       A experincia lhe ensinara que um veculo assim era de grande utilidade para transportar os estranhos "achados" com que deparava quando perambulava na busca
por materiais para reforma.
       A esttua que encontrara para o jardim do palcio italiano fora um desses achados, comprada e paga rapidamente, antes que o vendedor pudesse mudar de idia.
E imediatamente colocada em seu carro.
       Dez minutos mais tarde ela chegava a Haverton Hall. As duas guaritas a ladear os portes eram unidas por um lindo arco, mas tudo precisava de uma boa reforma.
       Sylvie fora informada de que o arco e as guaritas haviam sido construdos no mesmo perodo da casa principal. Tudo criado por um dos arquitetos mais famosos
do pas.
       O caminho que conduzia  casa era teatral, passando por um cortejo de rvores. Algumas faltavam, entretanto, maculando a simetria, embora as remanescentes
fossem to pesadas que obscurecessem todas as suas tentativas de avistar a manso.
       Sylvie prendeu a respirao ao fazer a curva final e avistar a construo. Estava acostumada a lindas propriedades. Afinal de contas, o lar ancestral de Alex
era famoso por sua graa e requinte. Mas aquela, a despeito do estado, era muito especial. Instantaneamente percebeu por que Lloyd se apaixonara de imediato por
ela.
       Erguida em uma pequena colina, permitia excelente vista dos jardins que a ladeavam. Era tudo o que os arquitetos neoclssicos haviam definido como padro
para suas casas e um pouco mais, reconheceu Sylvie, ao dirigir com vagar em direo  rea de estacionamento, defronte a um impressionante prtico com colunas. Parou
o carro, abriu a porta e saiu.
       Ran ouvira, de uma janela do andar superior, o automvel aproximar-se. Ela chegava cinco minutos antes do horrio marcado. Lembrou-se de uma Sylvie mais jovem,
da aparente inabilidade em chegar a qualquer lugar no horrio, e sorriu tristemente. Comeou a descer a escada.
       Encontraram-se no prtico pavimentado. Ran abriu a pesada porta frontal justamente no instante em que Sylvie dava o ltimo passo. Deteve-se por um minuto
ao v-lo, imvel como uma gazela sentindo a presena de um leopardo.
       Ran no havia mudado, mas por que deveria? Ainda parecia exatamente o mesmo. Alto, ombros largos, a pele bronzeada dos homens do campo, a cala jeans moldando
suavemente os msculos das pernas longas.
       Os braos estavam nus. O xadrez discreto da camisa era do tipo exato com que o vira nos anos de sua adolescncia. Os cabelos ainda eram impecavelmente castanhos,
os maxilares e queixo de linhas firmes.
       No havia sinal algum da vida fcil e cheia de riquezas que as fofocas relatadas pela me e por Molle lhe comunicaram. As duas haviam lhe falado do discreto
desfile de mulheres ricas e elegantes pela vida de Ran.
       Ele sempre preferira companheiras mais velhas, solteiras, conhecedoras de todas as coisas que no faziam parte do mundo de uma menina de dezessete anos.
       Apenas os olhos haviam mudado, notou Sylvie, com uma sensao de ternura que imediatamente foi reprimida. Oh, ainda eram da mesma cor incrvel, entre o mel
e o ouro. Tinham alguns pontos mais claros e eram emoldurados por clios escuros e espessos.
       Sim, tudo ainda era muito familiar, mas o modo sensual como a analisava, a mensagem masculina que podia ler naquele olhar que passeava por seus seios cobertos
pela camiseta, a cintura estreita e a cala jeans clara... Aquilo era certamente estranho para Sylvie, pelo menos vindo de Ran.
       Somente ento, quando decifrou aquele olhar como sendo de reprovao, ela percebeu que um dos dois havia encurtado a distncia a separ-los, deixando-os bera
mais prximos. Um dos dois...
       Para seu espanto, Sylvie percebeu que no apenas Ran se movera para mais perto como ela mesma estava a meio caminho da porta frontal. Quando se movimentara?
E como, sem saber que fazia isso? Ran sempre causara essa espcie de efeito nela.
       Mas tudo fazia parte do passado, procurou lembrar-se com firmeza. E, apenas para garantir-se de que Ran tinha conscincia disso tambm, estendeu-lhe a mo
e sorriu com fria autoridade ao cumpriment-lo.
       - Fico feliz que esteja aqui. Poderemos partir diretamente para o trabalho. Analisei as plantas da casa.
       Ela estava incrivelmente sensual, reconheceu Ran. Podia sentir o calor, a reao, a resposta inflamando seu sangue. Preparara-se para ver uma linda mulher.
Ela sempre fora assim. Mas no passado no era sensual. E sua reao frente ao que via o deixava atarantado.
       A voz fria e autoritria mostrava superioridade e distncia. Ele ignorou a mo estendida e percorreu a breve distncia a separ-los. Antes que ela pudesse
at mesmo imaginar o que iria acontecer, ele a enlaou pela cintura, o perfume msculo inebriando seus sentidos, a boca de traos perfeitos a centmetros da sua.
       -  Ran!
       Ser que aquela voz realmente era a dela? Suave, rouca e sim, de alguma maneira convidativa ao sussurrar o nome em um gemido que mais chamava do que afastava?
       Ele a puxou para perto, e seus lbios rapidamente cobriram os de Sylvie.
       No agia como o velho conhecido, o amigo de Alex. Estava sim se comportando do modo como ela sempre sonhara. Beijando-a como um homem beijava uma mulher.
       Desesperada, lutou valentemente para resistir, mas em vo. Seu corao tolo estava ligado demais a Ran para socorr-la, traindo-a e dando boas-vindas ao assalto
sensual. Ela o acolhia com a ansiedade da terra seca a receber chuva.
       - Ran...
       Sylvie tentou reunir suas defesas, mas a objeo perdeu-se no beijo. Seu entreabrir de lbios para falar apenas permitiu que a carcia se aprofundasse.
       Instintivamente, Sylvie aproximou-se, at colar todo o corpo no de Ran. Deliciosos tremores ameaavam perigosamente seu nfimo autocontrole.
       Puxou-lhe a camisa at libert-la do cinto. Era maravilhosa a sensao de escorregar as mos por debaixo do tecido e sentir o calor da pele daquele homem...
       Percebeu que ele estremecia. E lembrou-se do passado, de quando Ran vira seu corpo nu, excitado. Fora o nico rapaz ao qual expusera sua feminilidade. Mas
tamanho desejo, sem temores, a levara a ser rejeitada. -Rejeitada!
       Sylvie ficou imvel, as unhas se afundando na pele das costas de Ran ao reconhecer, com espanto, o que estava fazendo. E, ainda pior, com quem!
       - Largue-me! - exigiu furiosamente, afastando-o.
       Seu olhar cheio de mortificao e confuso observou-o dar um passo para trs. Sem deixar de fit-la, ele afrouxou o cinto e comeou a ajeitar a camisa para
dentro da cala jeans.
       O rosto de Sylvie estava escarlate, mas isso nada tinha a ver com o calor que ainda a inflamava. Era palpvel o desafio que aquele homem lhe mostrava. Por
isso, ela se obrigou a manter o olhar atado ao do oponente.
       Por que tinha de ser assim? Quando uma mulher desalinhava a roupa de um homem no calor da paixo, ele a fazia sentir-se muito vulnervel enquanto reparava
o desarranjo causado.
       Mas, quando um homem perturbava uma mulher e desajeitava suas roupas, mesmo assim era ela quem se sentia tmida ao arrumar as vestes.
       Pudera os vitorianos terem considerado a modstia uma virtude feminina...
       Quando Ran j havia ajeitado a camisa de modo satisfatrio, arrumou o cinto e, sem desviar o olhar do rosto de Sylvie, cumprimentou-a com ironia:
       - Bem-vinda a Haverton Hall.
       Ela daria tudo para conseguir uma resposta adequada, mas no conseguiu pensar em nenhuma. O fato assustador era que, no importava quanto tentasse convencer-se
do contrrio, fizera exatamente o que jurara no fazer. Pior do que isso, muito pior, tinha...
       Rapidamente engoliu em seco a sensao familiar e dolorosa de vazio. No iria trilhar aquela estrada novamente. O modo cruel e arrogante com que Ran se comportara
reforava suas piores impresses a respeito dele.
       No tinha iluses acerca do motivo de t-la beijado daquele jeito. Era o jeito de Ran a fazer lembrar-se no apenas do passado, mas tambm de sua superioridade.
Um jeito de lhe dizer que, embora estivesse encarregada do projeto, os dois iam trabalhar juntos e ele ainda tinha o poder de control-la.
       E de mago-la.
       Sylvie se virou, para evitar que suas emoes fossem reveladas no olhar.
       -  O lago precisa ser dragado -comentou secamente, ao contemplar o enorme lago ornamental a distncia.
       Era a coisa errada a ser dita. Pde sentir o tom irnico e divertido na voz de Ran:
       - Sim, precisa, mas vamos rezar para que desta vez voc no fique com lama at a cabea. Teremos de mant-la aqui para evitar isso. De jeito nenhum a Sra.
Elliott a deixar entrar na Reitoria cheirando a gua parada, coberta de lama e...
       Sylvie aprumou-se, ignorando a referncia ao fato detestvel que ocorrera com ela quando adolescente. Dera um passo em falso e cara de cabea no aude da
propriedade de Alex.
       - Reitoria? - questionou ela, com surpreendente calma.
       O relatrio que lera lhe informara que Ran atualmente morava em uma construo do sculo XVIII, e que fazia parte do legado. A julgar pelas plantas e fotografias
que vira, era uma propriedade muito bonita, rodeada por campinas atraentes. No ficara nem um pouco surpresa ao ler qu fora originalmente construda para o filho
mais jovem da famlia, que decidira tornar-se sacerdote.
       - Voc no deve t-la visto. Fica do outro lado da propriedade. Estou morando ali e combinei com a sra. Elliott, que era empregada de meu primo, que preparasse
um quarto para voc. - Fez uma pausa, procurando antever qual seria a reao de Sylvie. - Lloyd mencionou que trabalhar aqui durante alguns meses. Como Haverton
fica distante da cidade mais prxima, e Lloyd me advertiu de que voc gostaria de manter olhos atentos nos oramentos, faz sentido voc ficar na Reitoria em vez
de perder tempo e dinheiro perambulando pelos arredores, para encontrar uma acomodao. Especialmente porque haver ocasies em que voc ter de viajar para verificar
trabalhos em andamento em outras propriedades da Trust.
       O que ele dissera fazia sentido. Mesmo assim, Sylvie no era mais uma criana. No precisava que Ran ficasse lhe dizendo o que fazer!
       - Mas voc mora na Reitoria - comentou rapidamente. As sobrancelhas de Ran se arquearam, e ele lhe falou de modo lacnico:
       - A casa tem dez quartos, excluindo os do sto. H espao suficiente para ns dois.
       - A sra. Elliott mora l?
       Ran a encarou por um momento e irrompeu em uma gargalhada.
       - No, no mora. Mas tenho certeza de que isso no faria diferena. Voc e eu j estivemos debaixo do mesmo teto. E se por acaso teme encontros noturnos inesperados...
- Sorriu. - No se preocupe. Colocarei um trinco bem forte em minha porta, para que voc no entre.
       Sylvie estava sem fala de tanta raiva. Era horrvel no ser capaz de responder.
       - O que h de errado agora? - desafiou-a Ran, com fingida inocncia. - No h necessidade de ficar embaraada com o fato de ser sonmbula.  claro, seria
uma idia sensata estar vestida quando sasse da cama, mas avisarei a sra. Elliott e...
       Parou de falar quando Sylvie suspirou profundamente.
       - Aquilo aconteceu h anos, quando eu era criana, e apenas uma vez. No sou sonmbula.
       Mas o que estava fazendo? O que dizia? Por que o deixava fazer aquilo? Sylvie cerrou os dentes.
       Sim, uma vez, quando estivera desorientada e aborrecida por sua me casar-se novamente, realmente havia tido um ataque de sonambulismo. E talvez tivesse sofrido
um terrvel acidente se Ran no aparecesse. Mas aquilo acontecera uma vez e pronto. E, mesmo depois de ter desenvolvido uma afeio obcecada por ele, entrar em seu
quarto s escondidas nunca passou por sua mente.
       -  No? Ento por que est se preocupando? - voltou a indagar Ran. - Se  porque estar morando debaixo de meu teto enquanto Lloyd permanece em Nova York...
       - Seu teto? - Sylvie o interrompeu com rapidez, reconhecendo uma maneira de virar o jogo a seu favor e controlar a situao. Iria mostrar-lhe quem era o patro
ali. Deu-lhe um doce sorriso. - A Reitoria pode ter sido sua, mas como parte da propriedade agora pertence  Trust.
       -  Nada disso. Mantive a Reitoria e as terras. Pretendo torn-las uma fazenda, desenvolver pesca e caa.
       Sylvie foi apanhada fora de guarda. Era inusitado Lloyd permitir algo assim. Normalmente, insistia em comprar as terras que faziam parte da propriedade. Isso
garantia que o ambiente natural da construo fosse mantido.
       - Caso queira me seguir, poderemos ir at a Reitoria agora - ofereceu Ran com frieza.
       Sylvie imediatamente fez sinal de negativa com a cabea.
       -  No. Quero ver a casa primeiro.
       Ele a encarou e olhou para o relgio de pulso.
       - Isso levar no mnimo duas horas, talvez mais. E j so cinco da tarde.
       -  E da?
       Ran deu de ombros.
       -  Imaginei que, aps uma viagem to longa, e depois de ter dirigido do aeroporto at aqui, voc quisesse descansar.
       - Engano seu. Estamos nos anos noventa. Cruzar o Atlntico para tomar um caf da manh do outro lado do mundo, e depois voltar para casa, no  nada.
       Ran voltou a dar de ombros. Estendeu a mo em direo  porta principal.
       -  Muito bem... Primeiro as damas.
       Ao caminhar, ele fez uma pausa. A viso de Sylvie o deixara mais surpreso do que gostaria. Preparara-se para encontrar uma mulher, no a garota que vira embarcar
para os Estados Unidos. Mesmo assim, no pde conter o efeito devastador que a presena dela causou em seus sentidos.
       Os cabelos, longos e brilhantes, caam sobre os ombros em uma imaculada cascata dourada. Apenas fit-la o fazia ansiar por passar os dedos pelos fios macios,
observar a cor de mel de encontro s mos...
       Sentiu a musculatura de todo o corpo ficar tensa. A camiseta muito justa que ela usava salientava os contornos suaves dos seios. Recordava-se de no passado
t-la visto usando apenas camisetas largas e invariavelmente amassadas ao correr alegremente atrs dele, no trabalho...
       At mesmo para seus olhos vidos, a camiseta de agora em nada se adequava a um trabalho ao ar livre. E quanto ao jeans...
       Ran fechou os olhos. Como a viso de uma cala comprida clara adoravelmente se moldando aos contornos de uma mulher podia ter um efeito to avassalador sobre
os instintos masculinos?
       Atnito, constatou que, se Sylvie fosse uma completa estranha, e se ele a visse numa rua qualquer, instintivamente apressaria o passo para tentar ver se o
rosto era to bonito quanto o corpo.
       Mas ela no era uma estranha. Era Sylvie.
       - Se voc no mantiver distncia de minha filha, Alex dever, a meu pedido, falar pessoalmente com voc - a me dela um dia o advertira, logo aps a morte
do marido.
       Apanhara Ran em um momento ruim e obtivera uma reao instantnea. Ele imediatamente se arrependeu do que dissera:
       - Avise Sylvie para ficar longe de mim, ento.  ela que me persegue. Adolescentes so assim - acrescentara sem nenhuma gentileza, observando a senhora arregalar
os olhos de espanto.
       Naquele instante vira Sylvie passando rapidamente pela porta aberta da sala de Alex. Teria escutado? Esperava que no. Por mais constrangedora que fosse sua
paixo por ele, no gostaria de mago-la.
       Mas agora, ao observ-la, dava-se conta de que quem estava mais sujeito a magoar-se era elel
       Por que Sylvie aceitara como amante e pretendia partilhar sua vida com um homem que tinha mais do que idade para ser seu pai? Ran no compreendia. Talvez
fosse por ter perdido o pai quando jovem e vulnervel.
       Sylvie j tinha aberto a porta da casa e desaparecido no interior. Imerso nos pensamentos sombrios, Ran a seguiu.

       CAPTULO III
       J haviam percorrido o piso trreo da casa, passando pela elegante galeria com janelas que davam para o parque e mais adiante deixavam antever as montanhas
Derbyshire.
       Encontravam-se na enorme sala de danas quando Sylvie percebeu que Ran podia ter estado com a razo quando a advertira para descansar antes de inspecionar
a casa.
       Os ambientes de Haverton Hall podiam no possuir a exuberncia do palcio italiano, com pisos de mrmore, nem a grandeza do palcio de Praga. Mesmo assim,
Sylvie j contara diversos sales e antecmaras por onde haviam passado no piso inferior. A galeria parecia se estender por quilmetros.
       Enquanto estudava o piso empoeirado do salo de danas, sentiu-se zonza diante da perspectiva de avaliar o revestimento do teto e seus elegantes painis.
       E ainda estavam no piso trreo! No poderia, entretanto, suportar a idia de mostrar fraqueza diante de Ran e v-lo zombar de sua teimosia. De jeito nenhum.
Ento, ignorando a dor de cabea, respirou profundamente e comeou a observar os painis.
       - A primeira coisa a fazer ser avaliar a extenso da parte apodrecida - falou em um tom firme e profissional.
       -  No ser necessrio.
       Sylvie fez uma pausa e virou-se para fit-lo, furiosa.
       -  H algo que voc precisa compreender: eu sou a encarregada, aqui. No pedi sua aprovao. A casa est bastante estragada. Precisamos do relatrio de um
especialista para avaliar a extenso dos danos.
       -  J tenho um. Sylvie franziu a testa.
       - Desde quando?
       -  Era bvio que a Trust precisaria de uma comisso de especialistas em estruturas para inspecionar o lugar e assessor-la. Ento, para poupar tempo, contratei
uma. Voc pode ter uma cpia. Eu a enviei para o escritrio da Trust em Nova York semana passada, quando a recebi.
       Sylvie sentiu o corao disparar. Sabia que seu rosto estava vermelho de raiva.
       - Voc contratou uma empresa? Posso lhe perguntar quem lhe deu tal autoridade?
       -  Lloyd - foi a resposta imediata.
       Ela abriu a boca, ento voltou a fech-la. Era muito tpico de Lloyd agir assim. Pensara apenas em poupar tempo e fazer seu ltimo projeto de estimao ir
adiante mais rapidamente. No notara, como ela percebia, que o gesto de Ran na realidade no fora movido por gentileza e sim pela tentativa de dominar Sylvie e diminuir
sua autoridade.
       -  Presumo que no tenha lido o relatrio - prosseguiu Ran, falando com ela como se diante de um aluno malcomportado que no fizera a lio de casa.
       - No recebi relatrios para ler. Ran deu de ombros.
       -  Bem, tenho uma cpia aqui. Quer continuar a inspeo ou prefere aguardar at ter oportunidade de l-lo?
       Se a pergunta fosse colocada por outra pessoa, Sylvie se sentiria grata pela oferta de descansar. Teria oportunidade de fechar os olhos e fazer algo para
diminuir a dor de cabea. Mas, como era Ran quem lhe falava, optou pelo caminho contrrio.
       -  Quando eu quiser mudar meus planos, avisarei. At l, voc deve aceitar que a responsvel pelo trabalho sou eu.
       Ele arqueou as sobrancelhas, mas no fez nenhum comentrio.
       O tempo estava quente, e o ar na sala de danas, abafado. A poeira dava uma sensao de opresso. Sylvie espirrou, mas rapidamente aprumou-se. O sol brilhante
de final de tarde entrava pelas janelas e a fazia sentir-se estranhamente zonza, nauseada.
       Tentou no olhar para a janela e resmungou baixinho de dor quando o movimento de cabea fez o sangue pulsar de modo agonizante em suas tmporas.
       Era raro sofrer dores de cabea fortes assim. Apenas surgiam em situaes de estresse e tenso. Procurou evitar que Ran observasse seu rosto e tentou massagear
a testa para ver se a dor amansava.
       -  Cuidado... - Ran a avisou.
       -  Com o qu?
       Sylvie se virou, a cor fugindo do seu rosto quando ele apontou para uma poro de reboco que despencara do teto. Ela quase tropeara ali.
       Sentia-se cada vez mais adoentada, banhada por aquela luz forte. Desesperada, fechou os olhos, desejando que a sala no comeasse a girar perigosamente a
seu redor.
       -  Sylvie...
       Rapidamente, ela abriu os olhos.
       -  Sim?
       - Voc no est bem. O que foi?
       -  Nada. Apenas uma dor de cabea.
       - Dor de cabea? - Ran observou o rosto plido e as suaves gotas de suor em sua testa. - J chega - disse-lhe com firmeza. - Podemos terminar amanh. Voc
precisa descansar.
       -  Preciso fazer meu trabalho - protestou Sylvie com voz trmula, mas era bvio que Ran no lhe daria crdito.
       -  Consegue retornar ao carro? Ou devo carreg-la? Carreg-la? Sylvie o fitou, ultrajada.
       - No h nada de errado comigo - mentiu, e gemeu baixinho quando o breve movimento de cabea, para negar a sugesto dele, lhe causou nuseas.
       Percebeu ento que Ran a segurava com firmeza e a fazia caminhar em direo  porta, ignorando seus protestos para deix-la sozinha.
       Mais adiante, para intenso pesar de Sylvie, ele se virou e a tomou nos braos, dizendo entre os dentes:
       - Se vai desmaiar sobre mim, ento este  o melhor lugar para fazer isso.
       Ela queria lhe dizer que no tinha a menor inteno de desmaiar, mas seu rosto estava premido de encontro  pele quente do pescoo de Ran e, se tentasse falar,
seus lbios tocariam aquela pele e ento...
       Engoliu em seco e tentou concentrar-se em banir a dor agonizante na cabea. Mas era algo que no podia dominar. Sabia, por experincias passadas, que o nico
jeito de livrar-se dela era ir para a cama e dormir.
       Ran cruzava o hall, abria a porta e a carregava para o ar fresco.
       - O que est fazendo? - ela indagou, quando o viu passar ao lado do carro alugado e prosseguir em direo a seu prprio automvel.
       - Vou lev-la para a casa. Para a Reitoria - disse-lhe de imediato.
       - Eu consigo dirigir - protestou Sylvie, mas para seu aborrecimento, Ran apenas riu.
       -  De jeito nenhum.
        Em segundos ela era ajeitada no banco de passageiros de um Land Rover quase to velho quanto aquele que Sylvie o vira dirigir pela propriedade de seu irmo.
Notou que ele se acomodava no banco de motorista e girava a chave.
       -  Minha bagagem...
       Ran obviamente no tinha inteno de ouvi-la. O barulho do motor no permitia conversas. Sylvie desistiu de tentar det-lo e sucumbiu ao conforto do assento,
ajeitando os ombros e deliberadamente virando a cabea para o lado, a fim de evitar fit-lo.
       Ele a observou e franziu a testa. Naquela pose, parecia indefesa e vulnervel, diferente da mulher de negcios profissional e poderosa que mostrara ser. Muito
mais parecida com a garotinha de quem se recordava.
       O Land Rover deixou uma trilha de poeira quando entrou na estrada de terra que conduzia  Reitoria.
       Menina ou mulher, o que isso lhe importava? Prendeu a respirao, a ateno subitamente capturada pela viso de diversos veados caminhando placidamente ao
lado da estrada. Deviam estar confinados na rea do parque que rodeava a casa, e no naquela regio, destinada aos carneiros.
       Provavelmente havia um rompimento na cerca nova, que ele acabara de comprar e instalar com todo cuidado. O que significava...
       Havia rumores sobre caadores na rea; outros fazendeiros haviam relatado roubos e perdas. Assim que Sylvie estivesse instalada, retornaria para verificar
a cerca.
       Ela fez uma careta quando o carro passou por uma salincia na pista. Sentou-se e mal conseguiu conter um grito de dor.
       -  O que foi? O que h de errado?
       -  Nada... Estou com dor de cabea, s isso - murmurou, mas seu rosto endureceu ao perceber que no o havia convencido.
       -  Dor de cabea? Parece mais uma enxaqueca. Tomou algum remdio?
       -  No  uma enxaqueca.  o estresse. Tenho isso ocasionalmente. A viagem, o vo...
       - O que h de errado com voc? - indagou ele, baixinho. - Por que  difcil admitir estar vulnervel, humana? O que a induz a exigir um comportamento sobre-humano?
Qualquer outra pessoa, tendo enfrentado um longo vo e dirigido durante quase cem quilmetros, sem interrupo, teria escolhido relaxar e descansar tim pouco antes
de comear a trabalhar. Mas no voc.
       -  Este pode ser o jeito britnico de fazer as coisas, mas nos Estados Unidos  diferente. L, as pessoas so recompensadas, elogiadas, por usar ao mximo
seu potencial.
       -  E por se lanar  exausto a ponto de ficar doentes? Pensei que Lloyd fosse... - Deteve-se, no querendo colocar aquilo em palavras, tornar realidade o
relacionamento que, sabia, existia entre Sylvie e seu chefe. - Pensei que ele se importasse com voc. Que a valorizasse.
       Sylvie aprumou-se, ignorando a dor.
       -  Lloyd no... Ele...
       Parou de falar. Como poderia explicar para Ran o significado de suas lembranas e temores? Quando adolescente, fizera tantas coisas tolas... At mesmo magoara
pessoas que a amavam e apoiavam. Seu envolvimento com Wayne era algo de que sempre se arrependeria.
       No soubera naquela poca, era claro, o que ele era. Sua inocncia no a deixara notar que Wayne comprava drogas e passava a pessoas em festas. Quando abandonou
a universidade, entretanto, para se juntar a Wayne e aos outros para invadir as terras de Alex, rapidamente se dera conta do erro que cometera.
       Sempre seria grata ao irmo e a Mollie por t-la ajudado a livrar-se da situao apavorante, por t-la apoiado, acreditado nela, aceitado que havia cometido
um erro. Deram-lhe oportunidade para colocar a vida novamente nos eixos.
       Ela nunca usou drogas. Sentira-se atrada pelo estilo de vida de Wayne, tivera os olhos abertos dolorosamente para certas realidades duras da vida e, depois
que Alex intercedeu a seu favor junto  me e s autoridades da universidade, as coisas comearam a melhorar.
       Ele obteve lugar para a irm em Vassar, onde Sylvje completou os estudos. Ela prometera a si mesma que pagaria a Alex e a Mollie tanta gentileza e amor. Fora
de indizvel valor a atitude de mostrar ao mundo que ela apenas precisava de apoio.
       Em Vassar, ganhou a reputao de moa muito reclusa. Recusava-se a comparecer a festas e a marcar encontros, dedicada a tirar excelentes notas nas provas.
       Agora, tinha muita vontade de corresponder  confiana que Lloyd depositava nela. Era verdade que algumas vezes se lanava muito duramente ao trabalho. Mas
as palavras speras ditas por Ran realmente fugiam  lgica.
       Dedicava-se arduamente  sua funo para ser considerada profissional, capaz e forte. Era bobagem, sabia, desejar que Ran adotasse uma postura menos crtica
a seu respeito. E mostrasse mais preocupao, ternura.
       -  Por que no admite que no est se sentindo bem?
       A indagao abrupta interrompeu-lhe os pensamentos, sublinhando quanto eram implausveis, tolos e perigosos.
       - Por que eu deveria? No acho que a Trust ou os donos das propriedades adquiridas vo me agradecer por desperdiar o tempo de ambos e consequentemente dinheiro
ao trazer  tona assuntos referentes  minha prpria sade durante discusses de negcios. Voc e eu j nos conhecemos, mas, ao que me consta, estamos conversando
por causa dos negcios.
       Passaram-se diversos segundos antes de Ran incomodar-se em responder ao discurso definitivamente voltado a distanci-los. Por um momento, Sylvie achou que
suas palavras seriam ignoradas.
       - Voc est dizendo que nosso relacionamento ser apenas profissional?
       Sylvie precisou reunir toda a coragem que possua para encar-lo. Conseguiu fazer isso, embora o esforo a deixasse perigosamente sem ar e com o corao parecendo
pulsar na cabea.
       -  Sim.
       Ran foi o primeiro a afastar o olhar, a expresso enrijecendo.
       -  Bem, se , o que voc quer, ento ser - murmurou, retornando a ateno  pista.
       A resposta, em vez de deix-la aliviada, fez com que se sentisse... Como? Desapontada por no t-la desafiado, dado-lhe oportunidade para... Para o qu? Discutir
com ele?
       Mas por que gostaria de fazer isso? O que sentia que devia provar? Queria ter oportunidade de provar o qu?
       Furiosa consigo mesma, Sylvie suspirou. Nada, era claro. Fizera um ponto, dissera o que gostaria de falar. Ran agora sabia exatamente como ela encarava o
relacionamento de ambos.
       Mais adiante avistava-se uma pequena colina cercada de rvores. Ran dirigiu naquela direo, passando pelos portes da amurada de pedras vermelhas.
       A casa que se espraiava adiante deixou Sylvie sem flego. Estava habituada a lindas e enormes propriedades, a estilos elegantes, cenrios to espetaculares
que era necessrio piscar e olhar novamente. Mas aquela era muito diferente.
       Era-lhe familiar, como se j tivesse pisado em cada ambiente, conhecido cada um dos quartos e cantos. Era a casa que havia criado para si na fantasia de sua
infncia. O lar que abrigaria e protegeria a famlia que tanto queria possuir.
       Encantada, no conseguia parar de contemplar as paredes de pedras vermelhas, notando a perfeita simetria das janelas georgianas e a delicadeza da luminria
sobre a porta.
       Uma trepadeira subia pela parede, o tronco e os galhos meio acinzentados de encontro ao avermelhado das pedras. J havia florescido, mas mesmo assim havia
flores e brotos verdes, um blsamo para os olhos.
       Antes do segundo casamento de sua me, com o pai de Alex, as duas haviam morado em um pequeno apartamento era Bei-gravia. Belinda, uma pessoa muito socivel,
envolvia-se em diversas obras de caridade e organizava partidas de bridge.
       Sylvie nunca se sentira  vontade no elegante apartamento em Londres. Antes da morte do pai, morara em uma grande casa e sentia falta da liberdade que usufrura
naquela poca.
       Para confortar-se, criara a casa perfeita e uma famlia igualmente ideal para habit-la. Me, pai, ela mesma, mais uma irm com quem brincar e um irmo. Havia
avs, tias, tios e primos.
       Dedicara, a essa casa, grande parte de sua imaginao. Um local adorvel, protetor. Com rea suficiente para um pnei.
       Uma casa... A casa... Aquela casa!
       Ran tinha parado o Land Rover. Trmula, Sylvie desceu, incapaz de desviar o olhar da construo.
       Apenas por um segundo, ao notar a expresso embasbacada de Sylvie, Ran foi transportado ao tempo em que ela o fitara daquela maneira. Quando...
       Procurou lembrar-se do que Sylvie acabara de lhe dizer, dos termos colocados entre os dois. Ela deixara aquilo mais do que claro, sem necessidade de repeties.
S estava ali por causa do trabalho. Se pudesse escolher, trabalharia com outra pessoa, qualquer pessoa.
       Os passos de Sylvie ecoavam no pavimento enquanto andava devagar, como se em um sonho, em direo  porta frontal da Reitoria. J sabia o que havia por detrs
da porta. Paredes de tons suaves. Hall com moblia antiga e polida. Piso de madeira cintilante. Tapetes e tigelas com flores do jardim.
       Os olhos de sua imaginao j lhe mostravam tudo o que ela havia criado, at mesmo o perfume das flores. J sabia qual a cor dos olhos do gato que descansava
no tapete, tomando sol e ignorando o fato de que seu lugar era a cozinha.
       Automaticamente, buscou a maaneta, e s ento percebeu o que fazia. Deu um passo para trs, virando a cabea de modo a no ter de encarar Ran. Viu-o passar
a seu lado e destrancar a porta.
       Era cruelmente irnico que Ran, de todas as pessoas do mundo, fosse possuir a casa que ela tanto idealizara quando garota.
       A porta estava aberta. Ele fez uma pausa para deix-la passar  sua frente. Quando fez isso, Sylvie parou abruptamente.
       Um papel de parede pudo, nada atraente e de um tom escuro de marrom assombrou-a. Em vez do piso de madeira bem polida que esperara ver, havia um carpete
to velho e desgastado que j nem era possvel adivinhar sua cor original. Havia alguns mveis, velhos e no antigos, empoeirados em vez de polidos. No encontrou
flores, perfumes, nem mesmo um gato.
       -  O que foi? - Ran lhe indagou.
       Todo encantamento e at a inveja que sentira quando vira o exterior da residncia foram substitudos pela tristeza. Oh, o lugar estava razoavelmente limpo.
O ar, entretanto, tinha um cheiro que a fazia torcer o nariz. Tudo aquilo estava muito distante do lar que ela com tanta adorao criara mentalmente.
       Ouviu Ran mover-se pelo hall e postar-se atrs dela.
       - Vou lev-la at seu quarto. Voc tem alguma coisa para dor de cabea?
       -  Sim, mas est em minha bagagem, no porta-malas do carro que aluguei.
       Na excitao de ver a casa, a dor de cabea havia suavizado. Naquele instante, entretanto, o cheiro forte do hall fazia com que o mal-estar retornasse.
       No podia negar que deitar-se em uni lugar escuro e silencioso era uma necessidade premente.
       -  por aqui - Ran lhe disse, ao caminhar para a escadaria. O revestimento original dos degraus no mais existia, e a monstruosidade que fora instalada em
seu lugar fez Sylvie tistremecer de desgosto.
       A casa tinha um ar de tristeza, reconheceu, ao alcanar o grande patamar retangular, acarpetado com o mesmo tom revoltante de marrom do hall.
       - Seu tio-av morava aqui? - indagou com curiosidade.
       - No. Foi alugada. Quando meu primo herdou a propriedade, mudou-se para c. Aps sua morte, pensei em vend-la, mas est muito malconservada para atrair
o interesse de algum comprador. Como eu havia decidido ficar com as terras e a fazenda, pareceu-me sensato mudar-me para c. Precisa de uma boa reforma, claro.
       Sylvie nada falou, mas seu olhar expressivo comunicou seus pensamentos. Ran continuou a falar:
       - Posso ver que para algum como voc, acostumada ao melhor que o dinheiro pode providenciar, isto deve ser uma espelunca. Sinto muito se a nica acomodao
que posso lhe oferecer no corresponde ao padro a que est acostumada.
       Baixou as plpebras ao lembrar-se da elegncia do lar de Alex e do luxo a que Sylvie devia estar habituada com Lloyd.
       Mas para ela, que se recordava de como Ran a vira morar nas condies mais bsicas e primitivas, quando fizera parte do grupo acampado na propriedade de Alex,
o olhar que ele lhe dava parecia ser de pilhria.
       - Voc ficar aqui - Ran disse ao andar pelo hall cheio de portas. Empurrou uma e ficou em p ao lado aguardando que ela entrasse.
       O quarto era grande, com duas longas janelas que deixavam entrar o sol de incio de noite. A moblia fora de moda era de madeira, como as mesas do hall. Estava
impecavelmente limpa, mas sem lustro. O parapeito vazio da linda lareira, o qual ela teria preenchido com uma coleo de flores secas, era simplesmente um deserto.
       As cortinas e a colcha eram modernas e, suspeitava,recm-compradas, por causa de sua visita. O mesmo carpete deprimente do andar de baixo cobria o piso.
       - Voc ter seu prprio banheiro - disse-lhe Ran, ao passar pelo quarto e abrir outra porta. - E antigo, mas funciona.
       Ela se aproximou.
       - Pode ser antigo para voc, mas peas sanitrias brancas esto na moda.
       - H armrios e cabides naquela parede - disse-lhe, indicando o mvel. - Eu ainda no tive oportunidade, mas amanh lhe trarei uma escrivaninha do andar de
baixo.
       - Certamente vou precisar de algo para colocar meu computador porttil - concordou Sylvie. - Mas tambm precisarei de uma sala, para usar como escritrio.
Mas podemos discutir isso mais tarde. - Ela o encarou e suspirou. - Onde est sua empregada? Gostaria de conhec-la.
       -  A sra. Elliott estar aqui pela manh. - Consultou o relgio de pulso. - Terei de deix-la. Preciso sair, mas se voc quiser alguma coisa para a dor de
cabea...
       -  Eu gostaria do meu prprio remdio. Mas, j que no est disponvel, pacincia. Preciso de minha bagagem.
       -  Se puder me dar as chaves de seu carro, eu a pegarei - ofereceu-se ele. - D-me dez minutos, para fazer alguns telefonemas.
       Sylvie lhe estendeu as chaves do carro, imaginando onde ele iria passar a noite e com quem. Ran era um homem muito msculo e atraente. No havia como negar
isso.
       - Duvido que ele um dia v se casar - Alex um dia comentara.
       - Por que no? - Sylvie questionara, o corao adolescente apaixonado batendo freneticamente ao imaginar-se casada com Ran, partilhando sua vida, sua cama...
       Um delicioso arrepio de antecipao percorrera seu corpo ao esperar que o irmo dissesse que havia uma pessoa misteriosa na vida do amigo, ainda muito jovem
para ele, algum especial... Ela mesma...
       Mas em vez disso, Alex lhe falara:
       -  O salrio de gerente e a acomodao simples em uma casa pequena dificilmente estaro de acordo com o estilo de vida que as mulheres que Ran namora tm.
E ele  orgulhoso demais para fazer cair o padro de vida de sua esposa...
       - As mulheres? - perguntara Sylvie tristemente. Sua me, que estivera ouvindo a conversa, intrometera-se:
       -  Seria melhor que Ran se casasse com a filha de um fazendeiro, uma garota acostumada com aquele estilo de vida.

       Sylvie recordava-se de como Alex arqueara as sobrancelhas infla demonstrao de orgulho. Mas agora a vida de Ran havia mudado. Sabia quanto Lloyd havia pagado
pela casa. Havia impostos atrasados e outros compromissos, claro, mas ainda assim ele ficaria com uma soma razovel, muito maior do que a herana que ela recebera
do pai.
       Valor, a propsito, que, segundo a me, a tornaria alvo de possveis caadores de fortuna.
       Sim, com o dinheiro qu ele tinha  sua disposio e o uso que sem dvida faria das terras, Ran teria muito a oferecer a uma mulher.
       No que a posio financeira de um homem um dia tivesse contado para Sylvie. Secretamente, acreditava em um ditado que dizia ser melhor um lar simples cheio
de amor do que uma manso sem amor.
       Nunca teve dvidas sobre a pouca importncia das coisas materiais da vida em relao ao amor que Ran tinha para oferecer  mulher que amava... A mulher que
amava!
       Mordeu os lbios quando ele comeou a afastar-se. Assim que o viu sair, ficou olhando pela janela do quarto. Dava para os jardins, que tambm tinham aspecto
desleixado. Sua imaginao logo preencheu os cantos negligenciados com belas folhagens e restaurou o canteiro de rosas, tornando-o um recanto de paz e perfume.
       O ar no quarto parecia parado, mas, quando ela tentou abrir uma das janelas, conseguiu apenas quebrar uma unha. Fez uma careta quando a dor em sua cabea
comeou a intensificar-se. Talvez devesse ter aceitado o remdio oferecido por Ran. Rapidamente abriu a porta do quarto e apressou-se escadaria abaixo. Encontrou-o
em uma enorme cozinha, situada nos fundos da residncia. Quando abriu a porta, viu-o caminhando em sua direo, carregando uma bandeja com ch.
       - Para quem ? - perguntou Sylvie, desconfiada.
       - Para voc.
       Na bandeja, ela pde ver um pequeno frasco de remdio para dor de cabea. A inclinao de lhe dizer que no queria nem ch nem comprimidos era to forte que
teve de lutar para ignor-la.
       De onde vinha tanta perversidade? Descera a escada justamente para lhe pedir isso.
       -  Posso me virar sozinha - disse-lhe rispidamente, e estendeu as mos para pegar a bandeja.
       O olhar que Ran lhe lanou a fez enrubescer. Mesmo assim, duvidava de que ele fosse lhe estender a bandeja se o telefone do hall no tivesse tocado.
       Enquanto o via atender a ligao, Sylvie foi para a escadaria.
       -  Vicky! - ouviu-o dizer calorosamente. - Sim... Ainda est marcado... Estou ansiando muito por isso tambm - confirmou, em tom bem baixo. - Olhe, preciso
ir...
       Sylvie estava na metade da escadaria quando o escutou colocar o fone no gancho.
       -  Sylvie?
       Ela se virou, dizendo com aspereza:
       -  No deixe que eu o faa atrasar-se para seu encontro, Ran. Tenho muito trabalho a fazer.
       - Voc precisa dormir.
       - Ao contrrio. Preciso trabalhar - corrigiu-o, ao continuar a subir os degraus.
       Ran ficou em p, observando-a. Como ela o perturbava! E por que permitia que isso acontecesse? Por que simplesmente no lhe disse que o nico encontro que
tinha para aquela noite era com uma cerca estragada?
       Girou nos calcanhares e caminhou em direo  porta, irado.
       Sylvie estremeceu levemente. A tenso invadira cada msculo, no apenas a cabea. Lentamente conseguiu chegar ao quarto. Pegou dois comprimidos, tomou-os
com o ch e ento, aps tirar as roupas, deitou-se apenas com calcinha e suti.
       Somente quando j estava caindo no sono recordou-se de ter se esquecido de pedir a Ran para consertar a janela que no conseguira abrir.
       CAPTULO V
       Ran fez uma careta ao observar os pedaos de arame cortados da cerca. Nada de acidentes. Algum havia usado um cortador ali. O que significava...
       Os cordeiros que haviam nascido no incio da primavera haviam ido embora. Os veados pastando na rea prxima  casa eram um alvo tentador para caadores,
porque aqueles animais eram mansos e no acostumados ao clima de caa.
       Na ltima vez em que vira Alex, os dois discutiram os prs e os contras de marcar os animais. Como ele, Alex tinha um pequeno rebanho em sua propriedade.
Desde o casamento com Mollie, acrescentara mais um rebanho da mesma espcie de veado em miniatura que a duquesa de Devonshire criava com tanto sucesso.
       Quando Ran olhou para o cercado que separava a rea de pasto dos jardins principais, ouviu os paves fazendo barulho, avisando que algum se aproximava da
casa.
       Franziu a testa e levantou-se, tirando a poeira e a grama da cala jeans e aproximando-se do carro.
       Eram quase dez horas. Horrio improvvel para algum visitar o lugar. Ainda com a testa franzida, ele ligou o motor do Land Rover.
       Sylvie acordara abruptamente, imaginando onde estaria e por que no conseguia respirar adequadamente. O sol poente havia aquecido o ambiente j abafado.
       A dor de cabea havia, felizmente, amansado, mas poderia retornar se ela continuasse a respirar um ar to nocivo. Precisava de brisa fresca. Lavou o rosto
com gua fria, vestiu cala jeans e camiseta. Nova York operara algumas mudanas nela. Sempre se sentira feliz em roupas bem largas, mas atualmente...
       Lloyd com frequncia a provocava por sempre usar jeans e camisetas brancas. Isso havia se tornado sua marca registrada.
       Mas, como Sylvie lhe dissera, as peas faziam sentido em seu trabalho, pois permitiam-lhe subir em plataformas e ao mesmo tempo parecer arrumada e profissional.
O bastante para exigir o respeito que muitas vezes homens chauvinistas no queriam lhe dar.
       Tinha um par extra de chaves do carro na bolsa. Outro truque que aprendera no trabalho. Sempre ter chaves extras para tudo. Uma verdadeira necessidade, rapidamente
aprendera na primeira vez em que ficara trancada acidentalmente em um edifcio.
       Seria apenas questo de voltar a Haverton Hall e pegar o carro. No queria depender de Ran para ir at l. Alm disso, seria bom mostrar-lhe que, enquanto
ele se divertia com a namorada, Sylvie trabalhava.
       Tinha um excelente senso de direo e a caminhada at a manso era fcil para ela. Cantando alegremente uma cano, Sylvie percorria o trajeto.
       Era uma noite quente de vero, com luz suficiente para permitir que estivesse em segurana. Andar a p dava-lhe a oportunidade de apreciar a paisagem. Passara
bastante tempo na propriedade de Alex e sabia que Ran teria de trabalhar bastante para tornar produtivas aquelas terras.
       Era estranho, mas invejava o desafio. Entristecia-a, entretanto, invejar tambm a pessoa que seria esposa dele e teria a satisfao de restaurar com amor
a Reitoria. Torn-la o lar que, Sylvie sabia, poderia ser. Oh sim, como a invejava por aquilo.
       Somente por aquilo? Fez uma pausa, tirando uma mecha de cabelo da testa. Era claro que sim. No poderia invej-la por ter Ran, poderia? Ran e os filhos que
fariam juntos. No, era claro que no.
       J estava quase escuro quando Sylvie alcanou a manso. Aproximou-se do carro. O som de outros passos sobre o pavimento momentaneamente a fez ficar imvel.
S ento reconheceu as formas familiares de meia dzia de paves. Emitiam sons muito altos, para alertar sobre a presena de estranhos.
       Sylvie riu ao escut-los e balanou a cabea ao lhes dizer alegremente:
       - Sim, posso ser uma intrusa agora, mas tero de se acostumar comigo. Vocs e eu nos veremos muitas vezes.
       Permaneceu ali diversos minutos, observando os animais e conversando com eles. Em breve, sem dvida, quando ficasse totalmente escuro, os paves se esconderiam,
para evitar ataques de predadores.
       Deu-lhes as costas e contemplou a casa, tentando visualizar como ficaria quando as pedras estivessem bem limpas. Somente aquilo custaria uma pequena fortuna
e, sem dvida, levaria tempo.
       Devia pedir a Ran todas as informaes sobre como fora a casa e sobre o trabalho feito desde ento. No tinha certeza, mas suspeitava de que a escadaria fora
reformada.
       As minsculas mostras de coral, conchas e peixes esculpidos de modo inacreditavelmente realista na madeira relatavam, sem dvida, que o dinheiro para a construo
da casa viera de comrcio muito rentvel pelo oceano, no qual o dono do lugar estivera envolvido. Como membro proeminente da corte do rei Charles II e ura de seus
favoritos, ele sem dvida tivera acesso a muitas atividades lucrativas.
       Sylvie ficou imaginando como seria viver naquele tempo e naquela casa. No resistia  tentao de sonhar .luz do dia sobre o passado do local, sua histria,
imaginando-se parte daquilo... Pensando que seria a castel, e ento...
       Ran estacionou o carro distante da casa, de modo a no ser visto ou ouvido. Um pavo, a caminho do ninho, comeou a bater as asas at ganhar o milho que fora
trazido para o silenciar. No havia motivos para dar aos intrusos o mesmo aviso que recebera.
       Sylvie retornou s sombras e ao caminho em direo ao carro.
       Quando Ran virou para circundar a casa, por um momento imaginou que a frente estivesse deserta. E ento viu algum se movendo na semi-escurido.
       Imediatamente agiu, agachando-se e usando as sombras para ocultar-se. Correu p ante p em direo ao carro de Sylvie e para junto da pessoa que tentava entrar
no automvel. No havia tempo a perder. A porta do motorista j estava aberta.
       Lanando-se sobre a figura, Ran levou o ladro consigo para o cho, gritando:
       - Eu o peguei!
       Sylvie no o vira aproximar-se e foi surpreendida ao ser jogada para o cho. Julgou tratar-se de um assaltante? O peso dele a mantinha inerte, e as mos se
moviam rapidamente por seu corpo.
       Tentou em vo soltar-se, chutando-o, dando-lhe tapas nas costas, mas ficava cada vez mais aprisionada debaixo daquele corpo. Logo em seguida ele conseguiu
aprisionar-lhe as mos. Sylvie estava com raiva demais para sentir medo.
       E ento, subitamente, sentiu-se enregelar, todos os instintos femininos e temores despertados.
       - Fique imvel - avisou Ran abruptamente.
       Estava espantado em notar que a invasora era uma mulher. Presumira que o ladro fosse um jovem rapaz.
       Sylvie imediatamente reconheceu a voz de Ran e seus temores se transformaram em um misto de alvio e fria.
       - Solte-me! - exigiu,
       -  Sylvie?
       Ele havia relaxado o apertar nas mos mas o peso ainda a mantinha no cho. Sylvie se remexeu em protesto, queixando-se.
       -  Sylvie - repetiu Ran, ainda chocado com sua presena. - Eu pensei... Ouvi os paves e achei que algum estava tentando roubar o carro. No vi que era voc,
por causa da escurido. O que est fazendo aqui?
       -  Eu precisava de um pouco de ar fresco. As janelas do meu quarto no abriam e decidi caminhar, pegar meu carro. E quanto a voc? Pensei que estivesse namorando,
no andando por a, assustando pessoas.
       Sylvie estava se tornando cada vez mais inquieta e consciente do modo como ele se deitava sobre seu corpo. As pernas entrelaadas deixavam-na sem ar. Sentia-se
consciente demais do roar de seus seios contra o peito forte e de sua plvis acomodando-se de encontro ao corpo forte.
       Sentia o cheiro da noite quente de vero no ar e o aroma daquela pele. Uma essncia almiscarada, mscula e sensual.
       De alguma maneira, durante a luta, a camiseta sara da cala jeans. Ela percebeu ser tarde demais para arrepender-se de ter descartado o suti branco. Instintivamente,
levou a mo livre at o corpo, para verificar at que altura a camiseta tinha subido.
       -  O que foi? - perguntou-lhe Ran, a apreenso captada pelo movimento da mo de Sylvie,
       - Voc  pesado e est me machucando.
       Enquanto tentava ajeitar as roupas, valendo-se da escurido quebrada apenas pelo luar, percebeu ser tarde demais. Notou o sbito estreitar de olhos de Ran
ao seguir seu movimento e perceber que a camiseta havia subido o suficiente para deixar  a curva dos seios.
       A ltima coisa de que gostaria era que Ran estudasse seu corpo de uma maneira to, to...
       No momento em que o olhar pousou nos seios, eles reagiram, os bicos se tornando evidentes atravs da malha da camiseta.
       - Voc no est usando suti.
       - Sei disso - ela falou entre os dentes, o rosto muito quente ao tentar alcanar a ponta da camiseta para pux-la para baixo.
       Mas, antes que pudesse fazer isso, Ran se antecipou, apertando a beirada do tecido branco.
       Sylvie no tinha dvidas de que ele pretendia puxar a camiseta para baixo para cobrir-lhe os seios. Podia ler suas intenes naquele olhar. Por isso o que
aconteceu em seguida a deixou muito confusa.
       Ficou imvel ao sentir as pontas dos dedos speros nos seios. Imediatamente fez um movimento para afastar-se do toque, esquecendo-se de que ele segurava a
ponta da camiseta e a mantinha parada.
       Mas Ran soltou o tecido, e a blusa subiu, expondo plenamente os seios nus.
       Ela o ouviu praguejar. Aguardou. Sentir a mo de Ran gentilmente sobre um seio a fez fechar os olhos, para tentar conter a imensido de sensaes que a invadiam.
       No era apenas o que ele fazia, o fato de uma vez ter desejado tanto ser tocada assim, daquele jeito. Era como se uma emoo de muito tempo atrs, um desejo
guardado, subitamente viesse  tona.
       - Ran...
       As mos que deveriam afast-lo o abraavam. Sylvie o sentiu baixar o peso vagarosamente sobre seu corpo e o arrepio que sentiu foi de desejo, no de rejeio.
       Com muita gentileza e vagar, os dedos msculos acariciaram-lhe os seios, estudando-lhes a forma, explorando-os. O ar noturno, suave e sensual, em nada se
comparava quelas mos.
       Ran a acarinhava com cuidado e ela pde ver um brilho especial naquele olhar quando a fitou. E ento baixou a cabea em sua direo, beijando-a com uma determinao
que a deixou totalmente sem defesas.
       Sylvie entreabriu os lbios para a faminta exigncia dele, gemendo baixinho ao responder  paixo. Era algo carnal, primitivo, inevitvel.
       Uma brisa suave pairava entre as rvores que ladeavam o pavimento. Sylvie, muito sensvel, tudo ouvia. Sentia o calor do ar contra a pele. A rudeza da camisa
de Ran assanhando seus seios, fazendo-os doer quando a mo enorme pousou para acarici-los novamente.
       Mos de Ran.... Ouviu-o gemer, os dedos mergulhando em sua pele ao pux-la para mais perto. Instintivamente, ergueu os quadris, buscando um contato mais pleno.
A boca masculina queimava de encontro  sua garganta, a cabea movendo-se mais para baixo at alcanar os seios.
       Ela sussurrou palavras sem nexo, quase soluando de alvio quando Ran tomou um mamilo, acariciando-o com gentileza, sugando-o eroticamente, ecoando com a
pulsao da mscula excitao.
       Um dia, muito tempo atrs, ela havia sonhado em ter Ran exatamente assim. Pulsando, com determinao e incontrolvel paixo. Estremecia de desejo e deixava
as sensaes a dominarem.
       Queria-o tanto... Puxou-o para mais perto e ento parou. Algo se moveu em meio  vegetao. Ran tambm ficou tenso, erguendo o corpo.
       Subitamente, Sylvie sentiu-se abandonada. Percebeu, ento, o que estivera fazendo. Enrubesceu, mortificada.
       -  No me toque - avisou com voz trmula ao ficar em p. - Eu sinto muito por sua... por Vicky, pois voc acabou de ser infiel a ela.
       - Voc?
       O enrubescer de Sylvie aprofundou-se e ela se virou para impedi-lo de ver quanto a magoava.
       -  Ambos sabemos que o que aconteceu nada tinha a ver comigo. Podia ter sido qualquer pessoa. Voc estava...
       -  ... To atordoado com a viso de seus seios seminus que no pude resistir a sabore-los - complementou Ran suavemente. - Voc se esqueceu de que j os
vi?
       -  Pare! - implorou-lhe, instintivamente levando as mos aos ouvidos para bloquear o som das palavras provocadoras.
       No queria ser lembrada sobre aquilo. Sobre a ltima vez... Lgrimas anuviaram sua viso. Piscou para afugent-las. No deixaria Ran v-la chorando. De jeito
nenhum.
       Com passos trmulos caminhou para o carro, enquanto ele a observava. O que poderia lhe dizer?
       Sylvie tinha direito de estar furiosa. Aquela meno a Vicky era tola, entretanto. Vicky no era seu amor. No tinha um amor. No havia um relacionamento,
um compromisso em sua vida. O que era bem diferente da situao dela.
       Ser que Sylvie respondia a Lloyd da mesma maneira ardente, liberando sua feminilidade avassaladora, pulsante, um desejo quase fora de controle?
       Fechou os olhos ao ouvi-la dar a partida no carro.
       Ele cometera sua boa cota de erros na vida e tinha as devidas pores de arrependimentos. Mas de nada se arrependia mais do que de ter feito...
       Engoliu em seco e olhou para a escurido. Havia algo inacabado entre ele e Sylvie.
       Comeou a caminhar para o lugar onde deixara o Land Rover, o corpo cheio de desejo. Naquele momento, no havia nada que quisesse mais do que terminar o que
haviam principiado. Mas jamais poderia ter Sylvie, a mulher que mais desejava na vida.
       O corpo feminino respondera ao seu, mas ela o detestava. Ran sabia disso. Sylvie lhe dissera isso com bastante frequncia.
       -  Wayne  o homem que eu amo - declarara.
       Ran, furioso e enciumado demais para responder, simplesmente se distanciara. No lhe explicara que Sylvie era filha de um homem rico e que ele no tinha nada.
Passara os dois dias seguintes vasculhando Oxford, procurando por ela, mas j era tarde demais. Sylvie havia desaparecido. Quando a vira novamente, ela j estava
com Wayne.
       - Qual o problema? - ela lhe dissera. - Voc no me quis. No  a pessoa certa para mim. E nem se compara a Wayne.
       -  Ela e Wayne parecem ser amantes - confidenciara a Alex com tristeza.
       Outro homem havia tomado conta da vida de Sylvie, ocupado um espao em sua cama.
       Indefeso, Ran contemplou as estrelas. Por que diabos fizera aquilo, sucumbira  tentao e deixara ressurgir velhos fantasmas? A antiga dor? J no havia
passado noites e noites sozinho na cama, morrendo de saudade e desejo?
       Talvez Alex tivesse razo. Talvez fosse hora de ele procurar algum e casar-se. Assim que o trabalho por ali terminasse, Sylvie finalmente estaria fora de
sua vida. Ento ele trataria de buscar uma esposa.

       CAPTULO V
       Sylvie franziu a testa ao recomear a ler o ornamento do trabalho contra mofo e cupins em Haverton Hall. Acabara de observar que no final do relatrio havia
uma folha adicional, relatando uma infestao de cupins na Reitoria, propriedade de Ran. Em anexo, uma breve nota confirmava que o trabalho na Reitoria seria feito
antes que os empregados comeassem a trabalhar em Haverton Hall.
       Ela sentiu o corao acelerar, num misto de raiva e dor. A Trust nunca pagava contas de ex-proprietrios, e no iria comear agora. A possibilidade de ter
apanhado Ran em uma atitude condenvel como aquela lhe despertava emoes fortes e conflitantes.
       Levantou-se da escrivaninha postada frente  janela do quarto e ficou perambulando. Mentalmente, ensaiava como confront-lo.
       A soma envolvida no era grande. Se Ran tivesse agido de modo diferente, a Trust talvez fosse generosa a ponto de se oferecer para cobrir o custo do trabalho
na Reitoria. Mas o fato de ele ter tentado engan-los fazia com que Sylvie considerasse a situao inaceitvel. Ran devia estar rindo dela. Bem, mas no riria quando
o enfrentasse.
       Uma batida  porta desviou o rumo de seus pensamentos
       - Entre!
       Quando a porta se abriu, a sra. Elliott apareceu.
       - Ol. Ran me pediu para verificar o que gostaria para o jantar desta noite. Ele trouxe uma linda posta de salmo e disse ser um de seus pratos favoritos.
       Sylvie fechou os olhos.
       Maldito Ran. O que estava tentando fazer ao lembr-la de coisas do passado?
       -  E muita gentileza, sra. Elliott, mas eu vou comer fora esta noite.
       No havia pensado no que comeria na refeio noturna e sabia que seu comportamento em recusar o salmo de Ran era ilgico e levemente infantil. Mas no pde
se conter.
       Onde estava ele, afinal? Estrategicamente, ficava fora de seu caminho? Bem, no poderia fazer isso para sempre.
       Sylvie pretendia lhe dizer o que havia descoberto e exigir uma explicao por aquele uso indevido dos recursos da Trust.
       Sem dvida ele imaginou que poderia anexar uma conta de um trabalho realizado em sua propriedade  pilha das notas referentes s atividades em Haverton Hall
sem que ningum percebesse. Bem, veria o erro que cometera.
       Isso a fez lembrar algo. Precisava ir at a casa e conversar com a pessoa encarregada pela companhia que ele contratara para combater os cupins.
       Mordeu os lbios. Tinha de admitir que, ao agir to prontamente e fazer os relatrios, Ran ajudara o incio imediato dos trabalhos, fazendo com que ela economizasse
um bom tempo. Mas tambm tornara possvel que o servio fosse feito na Reitoria  custa da Trust.
       Dez minutos mais tarde ela descia a escada. Ouviu vozes no hall e, quando fez a curva da escadaria, viu a sra. Elliott conversando com uma mulher alta e elegante,
aparentando quase quarenta anos.
       -  Ento diga a Ran que passei por aqui - ela dizia  empregada.
       - Sim, direi, sra. Edwards - a outra respondeu de modo respeitoso.
       Sylvie a estudou com discrio. Alta, esguia, vestindo roupas claras, penteado imaculado. Era a espcie de mulher apreciada por Ran.
       Imaginou que aquela devia ser a namorada do momento. Parecia muito confiante, o ar de quase proprietria sugerindo ser mais do que simplesmente uma visitante.
       A mulher virou-se e viu Sylvie, a expresso mudando levemente e se tornando, se no desafiadora, certamente determinada.
       -  Estou indo para Haverton Hall, sra. Elliott - Sylvie disse  empregada com calma, acrescentando, com uma impetuosidade que se recusava a examinar ou analisar:
- Por favor, agradea a Ran pelo convite para jantar.
       Pde ver o modo como a outra mulher estreitava o olhar ao observ-la. Mal tinha alcanado a porta quando a sra. Elliott a deteve, anunciando:
       -  Oh, eu sinto muito. Quase me esqueci. Ran me disse que, se voc quisesse terminar o passeio pela manso, ele estaria de volta s trs horas.
       - Muita ateno da parte dele - respondeu Sylvie, acidamente. - Por favor, diga-lhe que no h necessidade de me acompanhar. Tenho as chaves de Haverton Hall.
       Sem esperar que a senhora fizesse comentrios, Sylvie abriu a porta. Como ele ousava?, perguntou-se, furiosa, ao apressar-se em direo ao carro.
       No precisava de companhia ou permisso para supervisionar o Hall. Deu a partida no veculo, lanando uma onda de poeira ao coloc-lo em movimento.
       Estava a meio caminho de Haverton Hall quando finalmente sentiu-se calma para dirigir com mais vagar. Seu rosto queimava. No cabia a Ran lhe dizer o que
poderia ou no fazer.
       Parou bem perto da casa e com determinao evitou contemplar o lugar do encontro da ltima noite. No tinha inteno de analisar o que acontecera. Um erro
de julgamento. Uma perda de equilbrio inexplicvel. No valia a pena desperdiar tempo pensando naquilo.
       Abriu a enorme porta e respirou profundamente antes de entrar. Com resoluo, ignorou os ecos de seus passos e apressou-se para onde havia interrompido a
inspeo no dia anterior.
       Em sua bolsa, havia um inventrio e uma planta da casa. No entanto, uma hora mais tarde, ela foi forada a admitir que a solitria inspeo era menos interessante
do que no dia anterior. As descries de Ran sobre os quartos e seus usos originais haviam sido muito teis.
       Ela gritou ao ver um rato passar  sua frente. Sempre tivera um medo irracional desses bichos. Moviam-se to rapidamente... Nunca superara completamente uma
experincia desagradvel, quando um roedor pulara em sua direo ao correr de gatos.
       Trabalhava no piso superior quando ouviu a voz de Ran. Aprumou-se, aguardando. A sra. Elliott devia ter lhe contado que a encontraria ali.
       Sylvie tirou da maleta o relatrio sobre os cupins. Com firmeza caminhou em direo  porta, abriu-a e gritou:
       - Estou aqui em cima!
       - No devia ter vindo sozinha - avisou-a ele, ao percorrer o corredor.
       - Por que no? A casa no  mal-assombrada, ? - zombou Sylvie sarcasticamente.
       - No que eu saiba. Mas os pisos, especialmente do andar de cima, no so totalmente confiveis. Voc poderia sofrer um acidente.
       - Mas que gentileza, a sua! Quanta ateno! Quase igual  que voc dedicou a estes relatrios. - Enquanto falava, estendia-lhe o oramento. - Ou ser que
estou sendo ingnua? Talvez-as palavras "interesses prprios" descrevam melhor seu alto grau de dedicao...
       Ran franziu a testa.
       - No sei o que est tentando dizer.
       -  No sabe mesmo? Li os relatrios esta manh. As estimativas que voc obteve so boas.
       -  E da?
       - Este oramento, em particular, relaciona-se a um trabalho que precisa ser feito na Reitoria.
       - Sinto muito, Sylvie, mas no estou compreendendo aonde quer chegar. A Reitoria precisa eliminar os cupins encontrados pelos especialistas e...
       - E voc decidiu colocar a conta desse servio entre as de Haverton Hall, certo? Ficaria perdida entre os papis.
       -  O qu? - Ran indagou baixinho, a expresso e o tom de voz denotando ultraje. - No sei o que est tentando sugerir - disse-lhe com rispidez.
       -  O fato fala por si mesmo.
       -  Prefiro pensar que sua imaginao est fazendo o fato falar. Sua interpretao  totalmente equivocada.
       - Voc no pode negar que este relatrio  uma prova.
       - Que prova? Trata-se de um oramento para um trabalho na Reitoria. Algo que tem sido feito  minha custa. Esse papel apenas est a porque esqueci de tir-lo
quando fiz as cpias dos documentos para voc.
       - Voc pagou pelo trabalho na Reitoria?
       -  Talvez voc queira ver os recibos...
       -  Sim, eu gostaria - respondeu ela, recusando-se a ficar intimidada, embora sentisse o rosto enrubescer. Imaginou quo tola pareceria se Ran realmente tivesse
os recibos.
       -  A sra. Elliott me disse que voc vai sair para jantar esta noite.
       Sylvie o encarou, atordoada com a abrupta mudana de assunto.
       -  Sim, vou.
       - No h um restaurante decente por perto, muito menos que oferea salmo fresco. Sempre foi um de seus pratos favoritos.
       - Talvez meu paladar tenha mudado. Ao contrrio do seu,.. - Viu-o franzir a testa, confuso, e explicou docemente: - Vi sua... amiga. Ela passou pela Reitoria
no instante em que eu estava saindo. Ficar mais do que deliciada em partilhar o salmo com voc.  E quanto queles recibos...
       Sylvie estremeceu ao contemplar a raiva iluminar aqueles olhos. Manteve-se, entretanto, bem aprumada. Afinal, fazia parte de seu trabalho certificar-se de
que a Trust no fosse trapaceada. Por ningum.
       -  claro - Ran falou formalmente, dando-lhe um sorriso de desdm. - Mas temo que tenha de ser esta noite, j que eu comparecerei a uma reunio de negcios
amanh de manh e ento estarei ausente por diversos dias.
       - Com sua... amiga?
       Mais tarde Sylvie lamentaria ter se trado daquela maneira. Mas, inexplicavelmente, as palavras saram antes que as pudesse conter, fazendo com que Ran a
estudasse da cabea aos ps.
       - Se voc se refere a Vicky... Diga-me, isso  da sua conta? Ou da Trust?
       Ele a pegara. Claro que aquilo no fazia parte de suas atribuies como representante da Trust. No lhe cabia fazer perguntas sobre a vida pessoal dos clientes.
Ficou mortificada por ter agido de maneira to inadequada.
       -  Se quer ver os recibos, ter de ser esta noite. Podemos combinar s oito e meia?
       Antes que ela pudesse dizer alguma coisa, Ran se foi, percorrendo o piso empoeirado.
       Sylvie ouviu o Land Rover afastar-se e somente aps dez bons minutos sentiu-se capaz de prosseguir com o trabalho. As emoes conturbadas, entretanto, no
a deixavam acalmar-se. Tinha o direito de desconfiar de Ran, afinal. Mas ser que poderia acus-lo de fraudar a Trust?
       Comeou a morder ansiosamente o lbio inferior. Se estivesse enganada, e caso Ran decidisse se queixar a Lloyd...
       Irritada, procurou lembrar-se mais uma vez do motivo de estar ali.
       A casa no era maior do que as outras que conhecera. Mas parecia possuir bem mais quartos interconectados do que as anteriores.
       Ela tirou uma camada de poeira da janela de um dos ambientes e espiou a paisagem campestre. Dali podia-se ver o rio onde Ran devia ter apanhado o peixe. As
guas serpenteavam preguiosamente pelo parque que rodeava a casa.
       A regio de Derbyshire era muito diferente da que ladeava o lar de Alex. Era, entretanto, muito fcil olhar em direo ao rio e lembrar-se das horas felizes
que passara com o irmo e com Ran quando garota, observando-os trabalhar juntos, ajudando-os a pescar e aprendendo suas habilidades no campo.
       Uma das maneiras de Haverton Hall gerar renda seria, como Ran sugerira, afiliar-se a uma grande corporao encarregada de explorar pesca e caa.
       A Trust, porm, no permitia a caa por esporte. Havia um programa bem especfico, colocado em prtica sempre que necessrio. A arte de caar animais era
ensinada como uma habilidade, sempre oposta  viso de matar por matar. Essa fora uma condio apoiada por Sylvie. Sempre insistira para que os afiliados a adotassem.
       Franziu a testa ao lembrar-se de que fora Ran quem pela primeira vez lhe mostrara no ser necessrio matar para apreciar esportes campestres tradicionais.
       Ran...
       Sylvie ainda pensava nele algum tempo mais tarde, enquanto dirigia pelos campos desabitados que rodeavam a casa. Havia apenas trs pequenas vilas, mas nenhuma
tinha restaurante.
       No pequeno bar da terceira vila o dono fez sinal de negao com a cabea quando ela lhe perguntou sobre comida, e pediu desculpas.
       - No servimos jantar. Posso ver se sobraram sanduches do almoo.
       Sylvie disse no ser necessrio. Estava morrendo de fome, ansiosa por sentar-se e saborear uma refeio quente, apropriada.
       - H um bom lugar no caminho para Lintwell - o gerente falou -, mas fica a quase quarenta quilmetros daqui.
       Quarenta quilmetros! O estmago de Sylvie j comeava a roncar. Contra sua vontade, vislumbrava o salmo pescado por Ran, rosado e suculento, servido com
deliciosas batatas e vegetais frescos. E, era claro, coberto por um delicioso molho holands.
       Comeou a salivar. J eram sete horas da noite. Caso fosse at Lintwell, comesse e depois retornasse, acabaria se atrasando para o encontro com Ran. De modo
algum lhe daria a oportunidade de acus-la de no ser profissional.
       Retornou ao carro. Teria de passar sem a refeio noturna naquele dia, aconselhou-se com firmeza. Afinal de contas, no seria o fim do mundo.
       Estava faminta, mas... Oh, aquele salmo... Ran tinha razo. Era seu prato favorito.
       J eram quase oito horas da noite quando estacionou defronte  Reitoria. A fome se transformara era irritao. A cabea doa. Baixa taxa de acar no sangue,
murmurou a si mesma. Era preciso apenas tomar uma bebida doce.
       Mas no era tudo o que queria. Gostaria mesmo...
       Que havia com ela?, divagou ao abrir a porta. Outras mulheres de sua idade sonhavam  luz do dia e fantasiavam sobre ter homens, no refeies.
       Oito horas. Teria tempo apenas para tomar um banho e trocar de roupa antes de encontrar-se com Ran. Gostaria de ler os papis novamente. Se ele tivesse pagado
do prprio bolso pelo trabalho na Reitoria e os recibos provassem isso, ela no saberia como desculpar-se. Fora precipitada ao acus-lo.
       - Sylvie?
       Ela parou no primeiro degrau da escada ao ouvir a voz de Ran. Quando se virou, encontrou-o em p, a diversos passos de distncia.
       - A sra. Elliott servir o jantar s oito e meia. Voc tem meia hora para aprontar-se.
       Dezenas de perguntas, algumas negativas e argumentos surgiram na mente de Sylvie, que evitou proferi-los. J estava no topo da escada quando indagou a si
mesma por que no dissera a Ran que j havia comido.
       O roncar audvel de seu estmago ao abrir a porta do quarto deu-lhe a resposta. Mesmo assim, perturbava-a que seu anfitrio soubesse que ela havia voltado
 casa sem ter encontrado algo para comer.
       Mas que no ousasse fazer algum comentrio a respeito, pensou Sylvie minutos mais tarde.
       J havia tomado banho e colocado um vestido preto, de seda, longo. Penteou os cabelos e maquiou-se antes de consultar o relgio de pulso.
       Quase oito e meia. Respirou profundamente, verificou a aparncia no espelho mais uma vez e ento, erguendo a cabea, foi em direo  porta do quarto.
       O vestido sem adornos podia no ser coquete, mas revelava o fato de ter custado boa parte do salrio, e carregava a etiqueta de um dos melhores estilistas
de Nova York.
       O tecido moldava-se discretamente  figura esguia de Sylvie. E at mesmo o mais desatento dos observadores teria reagido como Ran ao contempl-la descendo
a escada.
       Sylvie estava habituada a v-lo com roupas casuais. To acostumada estava a isso que se esquecera de quanto ele ficava atraente com roupas formais. Vestia
cala comprida escura muito bem cortada e camisa branca. Segurava de modo displicente o casaco enquanto a observava descer.
       Sylvie teve outra indesejada amostra da letal virilidade daquele homem. Isso a fez hesitar, mas apenas por um segundo. Logo continuou a andar.
       Ran trocara de roupa simplesmente para jantar com ela.
       Por qu? Por conhecer muito bem o efeito que sua aparncia causava a uma mulher suscetvel. Pretendia usar esse fato para distra-la, confundi-la. E Sylvie
precisava de toda a sua concentrao para verificar a verdade dos fatos.
       Ou ser que Ran teria se vestido assim por causa de outra mulher? Era possvel que fosse se encontrar com algum aps o trmino da reunio.
       - Teremos tempo para um drinque antes do jantar, se voc quiser - ele falou com calma.
       O modo como a fitou, pousando o olhar por uma frao de segundo na curva suave dos seios, fez o corao de Sylvie disparar.
       - Nada de bebidas, obrigada - recusou ela, dando-lhe um sorriso ao acrescentar deliberadamente: - Acho que lcool e negcios no combinam.
       Ran deu de ombros e abriu a porta da sala de jantar. Sylvie captou-lhe o perfume e seu vulnervel corao imediatamente reagiu.
       - Eu trouxe o oramento - disse-lhe, erguendo os papis, mas Ran fez sinal negativo com a cabea.
       -  Depois do jantar. Acho que boa comida e comunicao fraca no combinam.
       Comunicao fraca! Sylvie lhe lanou um olhar fulminante antes de acomodar-se na cadeira que ele lhe oferecia.
       O salmo estava delicioso, assim como o pudim gelado com creme fresco que o acompanhou. O queijo que encerrou a refeio fora fabricado na localidade, Ran
informou, acrescentando que gostaria de produzir algo similar, mas que os custos eram proibitivos.
       No passado, jantar sozinha com aquele homem a teria deixado muito emocionada. Ficava imaginando que ele a tomaria nos braos e...
       -  Pedi  sra. Elliott para servir o caf na biblioteca.
       O tom de voz rspido e profissional deteve o curso dos pensamentos de Sylvie. Sentindo-se culpada, afastou-os, procurando lembrar-se severamente, e mais uma
vez, do motivo de estar ali.
       - Aqui est o oramento que pedi para o trabalho na Reitoria. E este  o recibo pelo pagamento do servio.
       Sylvie desejou que sua mo no tremesse ao pegar os papis que Ran lhe estendia. Observou-os. Estava furiosa consigo mesma por ter dado a ele a oportunidade
de diminu-la.
       Seus olhos pousaram na data no topo do recibo. No devia desistir ainda. Devolveu os papis a Ran.
       - Vejo um recibo assinado e datado.
       -  Mostrando que o pedido foi feito h diversas semanas.
       - Com o propsito de mostrar que o contrato foi estabelecido h diversas semanas. Pelo que sei, este recibo poderia ter sido preenchido na semana passada.
- Fez uma pausa., antes de acrescentar com sorriso triunfante: - Ou at mesmo hoje.
       J comeava a se afastar quando Ran a deteve, agarrando-a pelo brao e a fazendo virar-se.
       - Est mesmo tentando me acusar de falsificar este recibo? - explodiu. - Que espcie de homem pensa que sou?
       Sylvie ignorou a pergunta e olhou de modo significativo para o local onde ele a segurava.
       -  Solte-me.
       -  Solt-la? Faz idia do que est me acusando? Voc no  mais uma adolescente. Se esta  uma tentativa infantil de...
       -  No, no sou - interrompeu-o ela, furiosa. - Sou a representante da Trust em Haverton e faz parte do meu trabalho proteger os interesses da empresa. Se
eu achar que algum, qualquer pessoa, est tentando trapacear a companhia e fazer mau uso de seus recursos, ento  tarefa minha...
       - Sua tarefa? - ironizou ele. - Parece convencida demais para algum que ascendeu profissionalmente passando pela cama do patro...
       Houve uma segunda pausa. O orgulho feminino protestou veementemente contra a infmia. Reagiu de imediato, ultrajada, do nico jeito que seus instintos conheciam.
Ergueu a mo e esbofeteou Ran no rosto.
       No soube qual dos dois ficou mais chocado. Durante segundos ficaram completamente imveis.
       Sylvie sentia as batidas aceleradas do prprio corao e podia ver as marcas que sua mo deixara na pele morena. Era tarde demais para se arrepender de seu
comportamento, virar-se e correr. Ran ainda segurava-lhe o brao. Quando tentou soltar-se, foi puxada para junto daquele corpo forte, sem qualquer cerimnia.
       Soube o que Ran ia fazer. J fechava os olhos e sussurrou, indefesa:
       -  No... - ao sentir a presso rspida da boca dele sobre a sua.
       Fugia totalmente  sua experincia ser beijada assim, como punio e diante de um desejo masculino irracional. Seu corpo no tinha defesas contra isso.
       Mas no era uma virgem vitoriana e sim uma mulher moderna, capaz de oferecer na mesma medida em que recebia. Com determinao, retribuiu a ira presente naquele
beijo.
       Ele j lhe forava os lbios, exigindo entrar em sua boca no com o toque terno de um amante, mas com a fora e a presso de um dominador. Um vitorioso.
       Sylvie tentou se soltar, mas apenas conseguiu moldar-se mais intensamente a Ran. Mesmo assim lutou, esmurrando-lhe o peito com os punhos e ento, quando no
havia mais espao entre os dois corpos, afundando as unhas em suas costas.
       Em algum lugar enevoado de sua mente havia a constatao de que aquilo nada tinha a ver com o insulto proferido por ele. Essa exploso de emoes poderosas,
essa necessidade de feri-lo e mago-lo e de tentar destruir o que restava de seu amor por Ran era algo muito, muito diferente de mero orgulho feminino ferido.
       - Sua raposa! - ouviu-o murmurar de encontro  sua boca, ao capturar-lhe a mo. - Seu amante mais idoso pode gostar de ter as costas arranhadas quando fazem
amor, mas eu no. Atnita com as palavras, Sylvie ficou imvel. Lloyd no era seu amante, mas aquilo no importava. O impacto do que Ran dissera doa intensamente.
Feria-a o fato de ele comparar a raiva de momentos atrs com algo sublime, que devia estar relacionado com ternura e amor verdadeiro. Subitamente, a raiva se esvaiu.
Sentia-se adoentada. No apenas por causa das palavras de Ran, mas tambm por aquilo que fizera.
       Sentiu os olhos rasos d'gua. Ran havia se afastado para fit-la. Tirando vantagem do modo frouxo como segurava seu brao, ela se soltou e comeou a caminhar
rapidamente, embora de modo trpego, at a porta da biblioteca.
       Ran tentou cham-la, indo para o hall e observando-a subir a escadaria. Devia segui-la, pedir desculpas, explicar-se? A expresso no olhar de Sylvie o deixara
chocado. Assemelhava-se mais  de uma criana magoada do que  de uma mulher madura, experiente, vivida.
       Alm do mais, fora totalmente impertinente de sua parte fazer aquele comentrio sobre Lloyd. O relacionamento de Syivie com outro homem no era de sua conta.
       Por um momento teve vontade de sentir o corpo feminino sob o seu, cheiroso, macio. Se pudesse sentir isso novamente... Mas qual o propsito de reviver antigas
recordaes, velhos erros?
       Fizera o que julgara ser melhor na poca, a mais honrada atitude a ser tomada. E nada podia alterar o passado.

       CAPTULO VI
       Sylvie contemplou os ponteiros luminosos do relgio. Uma e meia da manh. Estivera acordada durante a ltima hora, cortejando o sono, recusando-se a permitir
que seus pensamentos tomassem o controle da situao e a forassem a recordar-se.
       Estava muito agitada para dormir, temerosa demais com a hiptese de... De qu? Sonhar com Ran?
       Olhou pela janela. Um dos pequenos prazeres de morar no interior era no precisar fechar as cortinas  noite. Syivie adorava contemplar o cu noturno.
       Quando sua me se casara com o pai de Alex e todos foram morar no lar dele, sentira-se ameaada pela escurido da enorme casa. Fora Ran quem amansara seus
temores e apreenses, depois de t-la encontrado durante um ataque de sonambulismo.
       Levara-a para seu prprio quarto, dera-lhe uma bebida quente e conversara com ela, mostrando-lhe o telescpio que usava para observar o cu noturno.
       O equipamento era usado, no cotidiano, para um propsito bem mais mundano. Como gerente, uma de suas tarefas era estar atento a caadores e invasores. A noite
no atemorizava Ran, e com ele Syivie aprendeu a apreciar as belezas da escurido.
       Syivie rapidamente deteve o pensamento. J que no conseguia dormir, talvez pudesse trabalhar. Isso era mais compensador do que gastar tempo com assuntos
que s lhe traziam sofrimento.
       Enrubesceu ao lembrar-se de Ran a chamando de raposa. E a acusando de ser amante de Lloyd. O que diria se soubesse que ela apenas tivera um amante e que esse
homem no a havia desejado de verdade? Syivie implorara para que a levasse para a cama. E ele lhe dissera que no a amava. Que aquilo seria um erro, que devia ser
esquecido.
       Na poca, frequentava a universidade. Tinha, de fato, ido para l contra sua vontade. O amor adolescente por Ran fora to intenso, to potente que ela no
suportava a hiptese de ficar longe. Cada minuto que tinha, cada desculpa que encontrava, usava para estar ao lado do homem que amava.
       Mas Ran, ao que tudo indicava, no percebia seus sentimentos. Houve ento aquela tarde, quando Sylvie caiu no lago. Ele a tirara de l, rindo.
       - Preciso de um banho - Sylvie dissera.
       - Um banho? Mas a empregada de Alex no vai deixar voc entrar em casa desse jeito.  melhor ir para a cabana comigo e se limpar, caso contrrio ns dois
estaremos em apuros.
       A cabana... O pensamento a atemorizara e excitara. Imaginara seu corpo mergulhado em uma banheira de gua morna, enquanto ele, com amor, passava o sabonete
por sua pele...
       -  O que h de errado? - Ran lhe indagara, franzindo a testa. - Ficou vermelha. Est se sentindo mal? Est doente?
       Doente... Doente de amor, de desejo por ele. Mas era ingnua demais, muito tmida para revelar a verdade. Em vez disso, balanara levemente a cabea e juntos
foram para a pequena cabana.
       A sensual intimidade que ela to perigosamente imaginara provara ser apenas uma fantasia. Ran a fizera tirar as roupas na varanda, orientando-a a cham-lo
quando estivesse despida e enrolada na toalha velha que deixara no cho.
       - Vou colocar suas roupas na mquina de lavar. A empregada de Alex vai me matar se vir isso. Em seguida voc tomar um banho rpido no andar de cima. Ter
de ir para casa com as minhas roupas, que ao menos estaro limpas.
       Ela podia ser jovem e ingnua, mas no a ponto de ignorar a procedncia das lindas roupas ntimas de renda que Ran lhe oferecera para usar. Deviam pertencer
a uma mulher. Uma das amantes dele.
       Um dia, ouvira Alex brincando com Ran sobre seu gosto por mulheres mais velhas.
       - No estou disposto a compromissos ou casamento - respondera Ran. - Mas tambm no vou virar padre - admitira francamente. - Ento, uma mulher que sabe bastante
da vida, j foi casada e decidiu que isso no ]he serve,  perfeita para mim.
       Nenhum dos dois sabia que Sylvie ouvia tudo, do lado de fora da biblioteca...
       Ela no conseguira esconder sua afeio por Ran antes de partir para a universidade. Oferecera-lhe abertamente seu amor, mas fora afastada com determinao.
       Acontecera num Natal. Depois de trs taas de vinho, para ganhar coragem, Sylvie convidou-o para danar e pediu-lhe um beijo. Ran no apenas recusou, como
a deixou sozinha na pista.
       Como se a situao j no fosse ruim o bastante, para completar a humilhao da noite, ela o viu menos de uma hora mais tarde danando com uma mulher recm-divorciada.
Abraava-a com fora e acariciava-lhe as costas, na penumbra. Logo em seguida, baixou a cabea para beij-la com muita paixo, e depois a conduziu para um passeio
ao ar livre.
       Sylvie sentiu tanto cime que chegou a ter febre.
       Mais tarde, inocente que era, convenceu-se de que Ran no a queria magoar. Provavelmente ainda a via como criana, no como mulher, E, assim, continuou a
iludir-se.
       Em seu primeiro ano na universidade, por mais que quisesse detestar Ran, sentia faltadele, sonhava, desejava, prometia a si mesma que um dia seria diferente.
Que um dia ele a veria como mulher e a amaria.
       Recusou namoros com garotos que conhecia nos cursos e apenas comparecia a festas regulares de estudantes porque as colegas insistiam nisso.
       Fez algumas amizades com rapazes. Um deles a encantou. Tmido e recatado, David apenas fora para a universidade por causa da presso da famlia. Na verdade,
tudo o que ele queria era dedicar-se s artes plsticas. Pintava quadros muito bonitos.
       Fora esse amigo que a persuadira a comparecer a uma festa esquisita e lhe apresentara Wayne. Sua sofisticao a fizera lembrar-se, de alguma estranha maneira,
de Ran.
       Sylvie o ouviu contar sobre os planos de passar o vero com um grupo de amigos, viajando pelo pas. E se entusiasmou com isso. Alm do mais, Wayne parecia
compreend-la como ningum. Ela chegou a confidenciar-lhe como se sentia pouco  vontade com a mesada que Alex lhe dava e com as visitas constantes da me, que procurava
descobrir se a filha se alimentava apropriadamente e usava as roupas corretas.
       Belinda nunca quisera que ela fosse para a universidade. Alex acabara forando a situao, no sentido de a irm sair de casa para estudar. Era tempo, dissera
ele, de Sylvie crescer e se descobrir.
       Pouco tempo depois de saber que ela recebia uma mesada, Wayne lhe pediu dinheiro emprestado. Claro que Sylvie o atendeu. Eram amigos. Mas isso fez com que
tivesse de recorrer a Alex para comprar livros e pagar o aluguel.
       Mais tarde, Wayne lhe pediu outro emprstimo. Estava mal-humorado, zombando dela, acusando-a de ser inocente, ingnua.
       Aquilo a magoou, mas Sylvie nada disse. Sabia que em breve ele deixaria a cidade para juntar-se ao grupo de amigos. Pretendiam sair para uma longa viagem
de motocicleta, em direo ao sul. Iam encontrar outro grupo, que tentava persuadir o governo a dar permisso para que algumas terras pertencentes s Foras Armadas
fossem abertas ao pblico. Para Sylvie, parecia uma boa causa.
       - Venha conosco - sugeriu Wayne. E riu ao acrescentar:
       -  Mas no,  claro que voc no vir. Mame no gostaria, no  mesmo?
       Numa noite quente e abafada, Wayne foi visit-la. Levou uma garrafa de vinho. Insistiu em abri-la, embora Sylvie lhe dissesse que no queria beber. Por fim,
foi mais fcil capitular do que argumentar. Mas recusou com firmeza a droga que ele lhe ofereceu.
       - H alguma chance de voc me emprestar mais dinheiro?
       - indagou-lhe Wayne minutos mais tarde, ao acomodar-se no pequeno sof.
       - Sinto muito, no posso. No no momento - desculpou-se. -- Estou esperando que Alex me envie um cheque. Oua, no quero ser indelicada, mas preciso estudar.
       - Deseja que eu v embora?
       - Se voc no se importar... - concordou, fazendo um gesto na direo dos livros que colocara na mesa.
       Por um momento achou que Wayne protestaria. Mas, para seu alvio, isso no aconteceu. Ele caminhou pela sala.
       Ansiosa por v-lo partir, Sylvie o acompanhou. Ao abrir a porta, viu o Land Rover parado, e seu corao disparou.
       Furioso, Wayne a agarrou e forou-a contra a porta, a boca quente e mida sobre a dela. Sylvie imediatamente o afastou. Mas Ran j havia descido do carro
e caminhava naquela direo. Certamente testemunhara o que acontecera.
       Felizmente, o telefone celular de Wayne comeou a tocar. Ele dirigiu-se ao carro, conversando em voz baixa. Logo em seguida, Ran alcanou a porta.
       - Mas que surpresa! Eu no sabia... no esperava...
       - Obviamente - foi a resposta tensa. Ele entrou no pequeno hall, fechando com firmeza a porta. - Sinto muito se cheguei num momento inoportuno.
       Sylvie enrubesceu profundamente ao ver o modo como Ran a fitava. Estava claro que achava que ela e Wayne eram amantes.
       - Wayne  apenas um amigo.
       - Amigo? Voc costuma receber seus "amigos" usando apenas uma das camisas deles?
       - Esta roupa no  de Wayne.  uma velha camisa de Alex. O que Ran fazia ali? Por que fora v-la? Seu corao continuava batendo em ritmo acelerado.
       - De Alex?
       - Sim. Gosto de us-la. Faz com que eu me lembre de casa, de meu irmo, de voc. Sinto saudade - disse ela, prendendo a respirao enquanto aguardava a resposta.
       Tinha de haver algum motivo para Ran estar ali. E para sua reao  presena de Wayne. Estaria ousando demais ao ter esperana de que, pr debaixo daquela
raiva, houvesse um pouco de cime?
       - Casa? - Ran interrompeu seus pensamentos. - Duvido que sua me fosse apreciar ouvi-la descrever Otel Place como sua casa.
       Sylvie mordeu o lbio. Era verdade que a me no aprovava o lar de Alex e preferiria que, como ela, a filha morasse na cidade, no no campo.
       - Sou adulta. Tomo minhas prprias decises.
       - Posso ver. E entreter seus amigos usando nada mais do que uma camisa de Alex  uma de suas decises tambm, Sylvie?
       O rosto dela ardia. No havia um trao sequer de cime naquela voz. Apenas o tom de censura familiar de um irmo mais velho.
       - Eu no esperava que Wayne aparecesse. Estava com calor. Tomei banho e...
       - Wayne... No  esse o amigo que emprestou metade de sua mesada?
       Sylvie franziu a testa. Alex certamente lhe contara sobre isso. Desejava ter pedido ao irmo que guardasse segredo.
       - Ele pagar a dvida.
       - As coisas mudaram desde a minha poca na universidade - comentou Ran com cinismo. - Na ocasio, no era a mulher que tinha de assegurar as atenes de um
homem ao lhe oferecer dinheiro...
       Sylvie o encarou, incapaz de impedir que o espanto e a dor causados por aquelas palavras fossem demonstrados em seu olhar.
       - No  nada disso. No estou atrs de Wayne. Eu no... Parou abruptamente e fitou o nada. Como explicar a Ran que no corria atrs das pessoas em busca de
sexo se fizera exatamente isso com ele?
       - Alex pediu que eu viesse v-la. Teve de viajar a negcios e solicitou que eu lhe desse isto.
       Enquanto falava, tirou um cheque da carteira. Sylvie engoliu em seco e pegou o papel.
       ~~ Voc poderia t-lo mandado pelo correio.
       - Alex queria que fosse entregue pessoalmente.
       - E uma longa viagem. Voc gostaria de beber, comer algo?
       - Caf seria timo - disse ele brevemente, seguindo-a para a pequena sala de estar.
       O vinho que Wayne levara ainda estava sobre a mesa, junto ao copo dela, quase vazio. Sylvie viu o olhar firme de Ran para a garrafa.
       Uma divisria de madeira separava a sala de estar da pequena cozinha. Ran apoiou-se ali enquanto Sylvie fazia caf.
       - Voc perdeu peso - disse-lhe, quando ela finalmente lhe estendeu a xcara. -  apenas sexo o que existe entre seu amigo e voc, no ?
       Sylvie compreendeu o significado daquelas palavras e colocou a xcara sobre a pia, o rosto ardendo de indignao.
       - No estou me drogando, se  o que est sugerindo. No sou tola.
       Magoava-a saber que Ran pensara nessa hiptese. A alegria que sentiu por v-lo desapareceu, por causa das palavras speras. Sentia-se cansada, adoentada.
Lgrimas encheram seus olhos.
       - Por que as coisas tm de ser assim entre ns? - indagou, fitando-o profundamente. - Por que no podemos ser amigos?
       - Amigos? E que espcie de amizade voc prope que tenhamos? A mesma que partilha com o "amigo" que acabou de ir embora? Qual o problema? Wayne no a satisfaz
na cama? Voc precisa de algum para comparar a ele? Porque, se precisar...
       Sylvie j ouvira o bastante.
       -  Eu no quis dizer isso! - gritou. - Odeio voc, Ran! Odeio! - disse-lhe  beira das lgrimas. Esmurrou o peito largo, desesperada.
       - Pare!
       Ele tomou-lhe os pulsos e a afastou. S ento Sylvie deu-se conta do que fazia. Envergonhada, evitou encar-lo.
       Ouviu-o respirar profundamente. Ento Ran levou as mos seus cabelos, acariciando-os, amparando-lhe a cabea ao inclinar-se em sua direo, a respirao bem
quente de encontro ao seu rosto, lbios...
       Sylvie imediatamente se esqueceu de tudo o que havia acontecido. A discusso, a raiva. Lembrava-se apenas de seu amor por Ran.
       Instintivamente, chegou mais perto, correspondendo com alegria e paixo quele beijo, acreditando que, a despeito de tudo, ele se importava com seu bem-estar.
       Pressionou o corpo ainda mais de encontro ao dele.
       - Ran...
       O nome era um suave apelo em seus lbios. Tocava-o delicadamente, esperando, saboreando. Podia senti-lo estremecer e, de modo ousado, aprofundou o beijo.
Agia mais por instinto do que por conhecimento.
       O efeito dessa atitude foi explosivo. Mos vidas passaram a se mover possessivamente por seu corpo, costas, at chegar  cintura e ento mais abaixo. Ran
a puxou para bem perto enquanto insinuava a lngua em movimentos repetidos dentro de sua boca, carregando-a inexoravelmente at um ponto em que no havia mais controle.
       Ele lhe ensinava a enorme diferena existente entre sua tmida tentativa de explorao e a apaixonada sofreguido com que a tomava.
       Queria v-lo, toc-lo, sabore-lo, absorver o amor daquele homem. Ansiava por pertencer quele corpo. Ter seus contornos moldados aos dele em um ato de paixo.
Desejava...
       Gemendo baixinho, afastou-se e implorou:
       - Aqui no... Leve-me para a cama - sussurrou, o rosto ardendo.
       -  Sylvie...
       A inesperada rudeza na voz de Ran a deixou nervosa, mas ela se recusou a dar ateno quilo. Em vez disso, voltou a aproximar-se, prendendo o olhar de Ran,
tocando-lhe o corpo de modo bem ntimo. .   Sentiu-lhe a reao imediata.
       - Voc me quer, Ran - sussurrou com voz trmula. - E eu o quero.
       E ento, sem esperar resposta, deu-lhe as costas e caminhou para o quarto. Uma vez l, vrou-se e o fitou com muita seriedade. Ran ainda estava em p onde
ela o havia deixado, o rosto muito plido, os olhos cintilando.
       Antes que sua coragem a abandonasse, Sylvie comeou a abrir os botes da camisa e se despiu. Ficou nua diante dele, que a observava em silncio. Foi, provavelmente,
a deciso mais difcil de sua vida. Mas aquilo a tornava mais forte, corajosa e muito, muito feminina.
       Havia um brilho esquisito no olhar de Ran. Sylvie se sentiu tensa ao ver o modo como os maxilares se enrijeciam.
       - Ran?
       - Sylvie, por favor...
       Ignorando o tom irritado daquela voz, ela lhe deu as costas e caminhou para dentro do pequeno quarto. Segundos mais tarde Ran a seguia, batendo a porta e
se inclinando para resgatar a camisa descartada por ela. - Vista-a - ordenou.
       Sylvie o encarou. Insegura, passou a lngua pelo lbio, leves arrepios de excitao e nervosismo percorrendo seu corpo ao ver o modo como o olhar dele seguia
seu movimento involuntrio. - Voc a coloca em mim - sussurrou de modo provocante. Ouviu-o gemer. Percebeu, pelo canto do olho, a camisa de Alex novamente ser descartada
e ento, felizmente, viu-se entre os braos fortes, o corpo nu pressionado de encontro ao dele. Ran lhe cobriu o rosto, pescoo, boca, com beijos quentes. Sylvie
estremeceu, em mudo deleite.
       - Oh, Ran... - sussurrava em xtase. - Eu o quero tanto... Eu o amo tanto... Quero que voc tire a roupa - disse-lhe com voz rouca. - Quero v-lo por inteiro.
       Houve um brilho de excitao no olhar masculino quando ele deu um passo para trs e comeou a obedecer o tmido comando. No desviava o olhar do rosto de
Sylvie enquanto desabotoava a camisa.
       Ela prendeu a respirao ao observ-lo. Voltou a passar a lngua pelos lbios, ao captar o olhar inflamado que Ran lhe dirigia.
       A cala jeans seguiu a camisa. O corao de Sylvie batia descompassado. Contra a brancura da cueca a pele brilhava, bronzeada.
       Rapidamente, ela baixou as plpebras, consciente de sua inexperincia. Mas isso foi rapidamente esquecido. Varrido por uma onda avassaladora de excitao.
       Em mais alguns segundos estaria livre para fazer o que tanto ansiava. Livre para tocar, olhar... - Ran...
       Ela cruzou a distncia entre os dois, roando o rosto na maciez daquele peito. Aspirou profundamente o perfume masculino antes de, timidamente, premir os
lbios de encontro  pele..
       Como era gostoso aquele cheiro! Aos poucos Sylvie foi abrindo os olhos e ento entreabriu os lbios, para explorar-lhe a pele quente. Saboreava as batidas,
aceleradas do corao de Ran.
       Os braos fortes se apertaram ao redor de seu corpo e ento, subitamente, ele a carregou para a cama, pousando-a ali, tocando-lhe a pele. Passou a explorar
seu corpo, beijando-a de todas as maneiras que ela havia imaginado.
       Incapaz de deter-se, Sylvie comeou a gemer suavemente ao sentir o calor daqueles lbios em seu seio, o corpo se arqueando, retorcendo, dominado por uma intensidade
de desejo incapaz de ser contida.
       Passou a gemer de modo frentico, tocando-o, lambendo-o, beijando-o inteiro.
       - Ran... Agora, por favor, agora!
       Queria ter a fora masculina pulsando dentro de seu corpo. Sentia que Ran a tocava intimamente com os dedos enquanto a beijava, mas afastou-o. Todos os seus
sentidos exigiam que rejeitasse o que era apenas um substituto ao que seu corpo, sua natureza, sua essncia precisavam possuir.
       Sem nenhuma experincia anterior para gui-la, Sylvie respondeu aos prprios instintos, erguendo os quadris, roando-os em Ran, gemendo ao sabor do desejo
at sentir as mos dele em sua cintura, abraando-a, erguendo-a para finalmente se mover em sua direo.
       Um leve tremor a fez perder o ar. Seu corpo se enrijeceu e seus olhos se arregalaram ao sentir o corpo de Ran de encontro ao seu. Nunca imaginou que a prtica
do sexo fosse to maravilhosa.
       Em seguida, viu-o franzir a testa. Sua inexperincia, sua virgindade o detiveram. Mas, quando ele tentou retroceder, Sylvie o abraou com fora e ento j
era tarde demais. O corpo de Ran exigia a satisfao que ela lhe prometia.
       Foi muito mais do que Sylvie havia imaginado. Alegria, o paraso, a perfeio. Mesmo quando, aps aconchegar-se, muito feliz, ao corpo de Ran, sentiu uma
leve dor... Era bem leve, mas estava to deliciosamente satisfeita que nem se importava,
       Era uma mulher. Mulher de Ran. Eles se casariam no Otel Place, claro, e Alex abenoaria a unio...
       Com muita alegria, ela adormeceu.
       Pela manh, ao acordar, estava sozinha na cama. O primeiro pensamento que lhe ocorreu foi que devia ter sonhado com o episdio. Mas ento, quando andou at
a sala de estar, encontrou Ran ali, vestido, olhando pela janela.
       Seu corao explodia de alegria quando se aproximou e o abraou. Mas em vez de ter a resposta esperada, em vez de Ran virar-se e abra-la e beij-la, levando-a
de volta para a cama, ele com firmeza se afastou.
       - O que foi? O que h de errado? Na noite passada...
       - A noite passada foi um erro. Nunca devia ter acontecido. Por que voc no me falou que ainda era virgem?
       - Eu... Eu... - Sylvie podia sentir seus olhos comearem a se encher de lgrimas. No era assim que as coisas deviam ser. Ran distante, frio, quase acusador.
- Amo voc - disse-lhe com voz trmula. - Quero que fiquemos juntos. Casados.
       -  Casados? Voc ainda  uma criana.
       - No sou uma criana. Tenho quase vinte anos.
       -   uma criana, sim. E se eu soubesse que era virgem, jamais teria feito amor com voc. Por que no me falou? Por que me deixou pensar que voc e Wayne
eram amantes?
       - Eu lhe disse que no ramos, mas voc no me deu ateno. Achei que fosse ficar satisfeito por ter sido o primeiro... o nico homem da minha vida.
       - Satisfeito? - Ran comeou a rir, amargurado. - A nica coisa que poderia tornar pior esta situao constrangedora seria descobrir que voc est grvida.
       Sylvie empalideceu. Na noite anterior, perdida em seu amor e na intimidade partilhada, ansiara pela concepo do filho de Ran. Ao ouvi-lo dizer que essa era
a ltima coisa que gostaria que ocorresse, sentiu o peito massacrado.
       - Estou tomando plula - disse-lhe baixinho. - Meu mdico recomendou, mas por outros motivos.
       Era verdade, e seu sangue pareceu gelar nas veias ao lembrar-se de como passara a tomar o medicamento a contragosto. Felizmente fizera aquilo. No poderia
expor uma criana, um filho seu,  amargura existente no olhar de Ran.
       Todos os seus sonhos e esperanas desabaram, destrudos pela fora da rejeio.
       - V vestir-se, por favor. Preciso partir em breve, mas primeiro vamos conversar.
       Vestir-se!
       Ao colocar as roupas, na privacidade de seu quarto, soube ter pago um preo muito alto pela intimidade de fazer amor com Ran.
       Doam-lhe a perda da inocncia, a destruio de seu amor, de sua f, de sua crena em si mesma como mulher. No queria ver Ran novamente. No poderia saportar
encar-lo mais uma vez.
       Percebeu que a noite anterior no fora nada mais, para ele, do que a mera satisfao de uma necessidade fsica. Ela nada mais fora do que um corpo para aliviar-lhe
o impulso sexual.
       Caminhou de volta para a sala de estar. Ran lhe estendeu uma xcara de caf. Aceitou-a, tomando cuidado para fazer com que seus dedos no se tocassem.
       Sentia-se humilhada, devastada pela constatao de que ele no a desejava. Queria, naquele momento, livrar-se dele, v-lo fora de seu apartamento, de sua
vida e de seu corao. Para sempre.
       -  Sylvie...
       - No quero falar sobre isso - disse com orgulho, dando-lhe as costas. - Aconteceu. Foi um erro, ambos sabemos disto, mas uma garota tem de perder sua virgindade
um dia... Wayne ficar contente. Como voc, no queria ser o primeiro.
       O que dizia? O que estava deixando implcito? Mentia, para convencer Ran de que no a havia magoado. E que no possua poder para machuc-la.
       - Voc quis fazer amor comigo para que Wayne a aceitasse? Sylvie podia ouvir a descrena e a fria na voz dele, mas ignorou o aviso. Ergueu a cabea e confrontou-o.
       -  Sim, isso mesmo.
       - No acredito. Voc disse que me amava. Tambm falou sobre casamento.
       Sylvie deu de ombros.
       - No  isso que uma virgem deve fazer? Como eu poderia amar voc? Por que eu deveria? Tudo o que voc faz  me criticar. Quero que v embora.
       - Mas voc no pode...
       - Wayne chegar logo. Ele vinha me pedindo h tempos para encontrar algum com quem... eu pudesse perder a virgindade. Ele  muito experiente e gosta que
suas amantes saibam... tudo sobre sexo. E Wayne  o homem que eu amo.
       Mas o que estava dizendo? Sylvie no podia acreditar no que acabara de falar. Mas Ran parecia no ter dificuldades em aceitar o que ouvia.
       Ele colocou a xcara de caf mal tocada sobre o balco e andou em sua direo. Imediatamente Sylvie retrocedeu.
       -  No sei por que voc est fazendo um drama - disse. - No  grande coisa, afinal.
       - Talvez no para voc - afirmou Ran.
       - Nem para voc. - Naquele instante o telefone comeou a tocar, e ela se apressou na direo do aparelho, falando por sobre o ombro: - Deve ser Wayne.
       No era. Sylvie sabia que o pobre vendedor devia ter ficado atnito e provavelmente chocado com o tom de sua conversa. Respondia ao discurso de vendas, dizendo-lhe
ter feito o que ele lhe solicitara e que mal podia esperar para encontr-lo novamente. Lanou barulhentos beijos ao fone e terminou a ligao.
       Virou-se para Ran e lhe disse friamente:
       - Wayne est a caminho. Ento, a menos que voc queira ficar e observar como aprendi rapidamente...
       Ela ainda sofria, o sorriso ridculo, falso e magoado que plantara no rosto para feri-lo, quando viu a porta bater atrs de Ran. Continuou sorrindo daquele
jeito durante alguns minutos, embora houvesse lgrimas em seus olhos.
       Mais tarde, naquela manh, viu Wayne por acaso. quela altura, j havia se convencido de que perdera Ran para sempre.
       - Ol, bonequinha. Parece que  hora de dizer adeus. Vou viajar esta tarde.
       Rapidamente, Sylvie decidiu. Era aquela a oportunidade ideal para escapar no apenas de Ran mas de tudo o que estava associado a ele: amor, vergonha, temor.
       - Vou com voc. Meu irmo enviou algum dinheiro. Posso me sustentar.
       Uma hora mais tarde Sylvie j havia empacotado tudo e trancava a porta do apartamento. Juntou-se a Wayne, que a esperava no carro.
       Era uma Sylvie nova. Muito diferente. Ran, seu amor por ele, a vida que um dia tivera... Tudo fazia parte do passado e era melhor ser esquecido.

       CAPTULO VII
       Um barulho no jardim, prximo  janela de Sylvie, a trouxe de volta  realidade. Atnita, deixou o olhar perscrutar a noite banhada pelo luar. Seu corpo se
enrijeceu ao ver Ran virar-se e desaparecer nas sombras.
       H quanto tempo estivera ali, a observ-la? Sabia, por causa das roupas, que devia ter estado trabalhando, provavelmente verificando se havia caadores nas
redondezas. Essa era a maior ameaa.
       Estremeceu e voltou para a cama. J passava das trs horas da manh. Tocou o rosto e percebeu que estava banhado em lgrimas.
       Por que era to sensvel? Em p ali, com lgrimas escorrendo pelo rosto, a reviver dores do passado? Oh, como invejava Ran. Ele jamais derramaria uma lgrima
por sua causa.
       O que havia acontecido com seu bom humor, sua fora, a promessa que fizera a si mesma antes de viajar? Jurara que as coisas seriam diferentes, que nunca mais
Ran teria a oportunidade de amea-la, como o fizera na ocasio em que ela permitira que os amigos de Ran invadissem as terras de Alex, destrussem a linda clareira
no bosque que ela um dia trabalhara to duramente para ajudar a criar.
       Ele a odiara por aquilo quase tanto quanto Sylvie o detestava. Vira aquilo nos olhos de Ran quando ele foi at o aeroporto, quando de sua partida para os
Estados Unidos.
       - Por que est aqui? - ela indagara.
       - Por que voc acha? - fora a resposta.
       Era claro que ela sabia. Ran queria ter certeza de que realmente estava partindo.
       Mas agora Sylvie voltara. E fizera uma descoberta indesejada, dolorosa: algumas coisas nunca mudavam. Alguns amores simplesmente no morriam.
       J no tinha mais vinte anos. Era impossvel fugir, arrumar um refgio para o desespero, como tentara fazer no passado. Tinha emprego, responsabilidades.
Alm do mais, o que conseguira da primeira vez em que fugira?
       A fuga no a havia feito parar de amar Ran, havia?
       Protegido pela escurido do jardim, Ran apoiou-se no tronco de uma rvore e fechou os olhos, A descoberta de que Sylvie iria representar a Trust reforava
a ironia que sentira quando pela primeira vez soubera da herana.
       Podia no ser milionrio, mas seu estilo de vida e perspectivas eram muito diferentes da poca em que tivera o confronto com a me de Sylvie.
       Tivera conscincia, claro, dos sentimentos dela. Mas aos dezessete anos era jovem demais, muito imatura emocionalmente para a espcie de relacionamento que
ele, um homem na casa dos vinte anos, poderia ter desejado.
       - O que a me de Sylvie pensa que vou fazer? - indagara com raiva ao perambular pela biblioteca de Alex.
       -  Isso no est sendo fcil para mim, Ran. Voc  meu amigo e...
       - ...Seu funcionrio. Sem dvida Belinda acha que sou apenas um obstculo a ser removido. E voc deve partilhar da preocupao dela. Caso contrrio, no teria
levantado o assunto.
       - Sim, de alguma maneira partilho - concordara Alex com cuidado. - No preciso dizer que isso nada tem a ver com nossas posies na sociedade. Se h algum
aqui que deve se preocupar com isso, esse algum  Belinda. Espero que me conhea bem o bastante para saber que essa espcie de atitude me aborrece muito. Minha
preocupao no est ligada a dinheiro. Na verdade, eu deveria estar conversando com Sylvie, mas.., Bem, ela no  de fato minha irm. Adolescentes e suas emoes
so, temo eu, um assunto que vai alm de minha experincia. Ento... - Respirara profundamente, agoniado. - A verdade  que Sylvie acredita que o ama. Pelo seu bem
e pelo dela, acho que esse sentimento no deve ser encorajado. Ela  jovem, muito vulnervel e eu detestaria v-la magoada. Assim como odiaria v-lo sofrer.
       - O que acha que vou fazer com ela? Lev-la para a cama?
       -  Acha impossvel sentir-se tentado a isso? No o estou criticando ou condenando, Ran. Fisicamente, ela est madura e ama voc. Ou acredita que ama.
       -  Est apaixonada por mim e logo mudar de idia - interrompera-o Ran secamente. -  isso que deseja que eu fale, no  mesmo? E devo manter minhas mos
longe dela at que cresa e supere tudo isso. Mas... e se eu me sentir propenso a agir de modo diferente?
       - E agir?
       - Sabe que no. Voc tem razo. Ela ainda  uma criana. Quanto antes crescer e se esquecer de mim, melhor. E quanto a lev-la para a cama, sempre h um remdio
para isso: outras mulheres.
       E assim fora durante algum tempo. Ran pulara de aventura em aventura at sentir-se envergonhado pelo vazio que aqueles encontros sexuais lhe deixavam.
       Manter a promessa feita a Alex, e a si mesmo, no foi fcil. Houve vezes, muitas, em que quase enfraqueceu. Como naquela tarde, em que a resgatara do lago
e a levara at a cabana. Como fora grande a tentao de tom-la nos braos, aceitando o que ela lhe oferecia to inocentemente... Fora enorme sua vontade de seduzi-la
e transformar a frgil fora de seu amor juvenil em um lao forte e duradouro de amor adulto.
       Mas, apesar da tentao que o beijo trocado representara, de alguma maneira Ran conseguira convencer-se das diferenas entre os dois. Idade, experincia e
perspectiva de vida.
       Ele amava seu trabalho e no gostaria de alterar isso por nada nem ningum. E uma menina como Sylvie, acostumada ao luxo desde o nascimento, no poderia mudar
e adaptar-se  espcie de acomodao que gerentes de fazendas geralmente tinham.
       Ela experimentaria uma existncia solitria, algo que se tornaria rotina enquanto ele estivesse trabalhando. No poderia impor-lhe isso.
       Se Sylvie fosse mais velha... Mais pobre... Talvez fosse diferente. Por isso, Ran resistira  tentao de submeter-se ao desejo e a seu prprio amor, e se
contentara em se fechar no prprio mundo. At o fatdico dia em que levara o cheque de Alex para Sylvie.
       Ele a vira ali, do lado de fora do apartamento, usando apenas uma camisa masculina. Uma camisa que, banhada pelo sol quente de vero, deixava delineadas a
forma e plenitude dos seios.
       Observ-la com outro homem, algum que presumira ser seu amante, avivara sua raiva, amargura, um cime que no conhecia rdeas.
       Mas descobrira, tarde demais, que no havia nenhum amante. Mal conseguira suportar o peso da prpria culpa.
       - Eu amo voc - Sylvie lhe dissera inocentemente. - Quero que fiquemos juntos.
       Ran passara a semana anterior com Alex, discutindo maneiras de reduzir os custos da administrao da fazenda. Entre as propostas, houve a sugesto de que
alugassem a cabana. Ele ento se mudaria para um dos quartos da casa principal. Ran sabia que, se Alex aceitasse sua sugesto, passaria a no ter um lar apropriado
para oferecer a Sylvie. Podia imaginar como a me dela reagiria diante daquilo, da idia de sua filha morando no mesmo lar que o gerente da fazenda... E Sylvie ainda
era muito jovem. Ainda na universidade, e com toda a vida pela frente. Que direito tinha ele de usar o que acontecera entre os dois para conquist-la?
       No, melhor deix-la pensar que no a queria em vez de ter de ouvir, depois de cinco ou dez anos, que a induzira a cometer um erro. Ela o acusaria de tomar
vantagem de sua juventude e inexperincia.
       Sentira-se feliz por ter feito isso quando ela lanara a bomba, relatando seu relacionamento com Wayne. Era algo que ele jamais esperava ouvir. Mas ento
vira-lhe a expresso, notara-lhe a veemncia na voz e percebera que Sylvie falava a verdade.
       Por isso fora embora, dizendo a si mesmo que seria melhor assim. E que um dia, de alguma maneira, seria capaz de esquec-la. Mas, claro, jamais conseguiu
fazer isso. E agora l estava Sylvie, de volta  sua vida. Uma mulher, no mais uma garota. A mulher que ele amava, mas que o detestava. O fato de Sylvie achar que
Ran poderia trapacear a Trust o magoara. Ser que o precioso Iloyd avaliava a sorte que tinha? Ou quanto ele, Ran, seria capaz de dar simplesmente para abra-la
e ouvi-la dizer que o amava? Daria tudo que tinha, tudo... Mas que tolo era. Sylvie no o amava. Observara-a alguns minutos atrs, quando retornara da verificao
das cercas. Estivera vistoriando o aparecimento, de potenciais caadores. Durante o trabalho, seu corpo ardera por ela. Muito, muito mesmo.
       De nada adiantaria ir para a cama. E logo as luzes do alvorecer invadiriam o cu.
       O beijo daquela noite abrira os portes de seu amor por ela, e seu corpo ardia de desejo. Como suportar os meses que se segwiriam? No fazia idia.
       Entristecido, afastou-se da casa e da tentao representada pelo quarto de Sylvie. Pela cama de Sylvie. Pela prpria Sylvie.

       CAPTULO VIII
       Ol, querida. Sou eu, Lloyd. Sylvie sorriu ao reconhecer a voz do patro.
       - Como vai?
       - Otimo. Oua, terei de ir  Inglaterra por causa de outros negcios e pensei em passar em Derbyshire para ver seus progressos em Haverton Hall.
       Sylvie sorriu. No estava nem um pouco surpresa. Lloyd era como uma criana com um brinquedo novo. Ao adquirir uma propriedade, dizia que no a visitaria
at que a reforma estivesse completa. Mas era incapaz de cumprir a palavra.
       Naquela manh, ela marcara uma reunio com a empresa que faria a restaurao das estruturas de gesso. Sediados em Londres, os artesos haviam sido treinados
na mesma companhia italiana que Sylvie contratara para reformar o palcio de Veneza.
       - Quando chegar? - perguntou a Lloyd, ainda sorrindo.
       - Fiz reserva para o voo de hoje.
       Sylvie ouviu a porta do pequeno escritrio que organizara em Haverton Hall abrir-se, mas no se virou. Nem precisava. Sabia, pela reao de seu corpo, que
era Ran quem entrava.
       Desde a noite do beijo, vinham se tratando com frio distanciamento.
       - Oh, Lloyd, isso  maravilhoso - disse-lhe de todo corao. - Tenho sentido saudade de voc. - Era verdade. Sentia falta dele. Subitamente, algo lhe ocorreu.
- Preciso ir a Londres para ver algumas pessoas. O que acha de ir at l comigo? Terei de pernoitar na cidade. - Ouviu-o contar onde planejava ficar e provocou:
- O hotel Anabelle? No  um tanto romntico?
       -  Ouvi excelentes, comentrios sobre o arquiteto que projetou o hotel - respondeu Lloyd. - Meu interesse  puramente profissional.
       Quando Sylvie terminou o telefonema, Ran havia partido. timo! Quanto menos estivessem juntos, melhor. Preferia muito mais suas refeies noturnas solitrias
ao trauma de passar horas ao lado dele.
       Mas algumas vezes ficava imaginando onde ele comia, e com quem. Com Vicky, claro. Ela sempre telefonava.
       A loja ocupada por Phillips & Company, mestres em restaurao, ficava em uma ruela estreita, entre prdios que o tempo parecia ter esquecido de castigar.
Caminhar por ali era como retornar ao passado, considerou Sylvie ao suspirar, deliciada.
       - As casas pertencem  realeza - um dos scios do negcio, Stuart Phillips, informou. - E o acesso  muito restrito. No apenas para a conservao dos prdios,
mas porque os locatrios exigem privacidade. Obtivemos licena para alugar a loja depois de ter trabalhado em um dos palcios reais.
       - E quanto ao trabalho em Haverton Hall? - perguntou Sylvie.
       - Ficar caro.
       - Est certo, desde que o custo no seja exorbitante. Haver trabalho para mant-lo ocupado por aproximadamente dois meses.
       - Precisamos de uma garantia de que o contrato ser cumprido at o final.
       - Voc a ter - garantiu Sylvie.
       - Pelos arquivos que voc nos mostrou, o trabalho original foi feito em alto padro, especialmente os entalhes em madeira. As cpias do projeto so excelentes.
H at mesmo uma lista da moblia e o esquema de cor de cada quarto.
       Sylvie teria de agradecer a Ran por aquilo. Normalmente, tinha bastante trabalho ao buscar esse tipo de informao. Ran executara a tarefa por ela. No o
deixaria saber quo impressionada ficara. No estava preparada para fazer qualquer coisa que o colocasse em posio vantajosa.
       Sylvie combinara encontrar-se com Lloyd no hotel, para o ch da tarde. Ele adorava aquela espcie de tradio.
       -  Nenhum outro pas serve um ch da tarde como a Inglaterra...
       - Acho que no - foi a resposta de Sylvie, que comeou a relatar a visita aos restauradores.
       -  Tem certeza de que so to bons quanto os italianos?
       - Ainda melhores. O trabalho original na casa foi feito por ingleses treinados na Itlia.
       -  Por que no fica aqui esta noite? - sugeriu Lloyd. - Posso reservar-lhe um quarto.
       - No, obrigada. J combinei passar a noite com minha me. Sabendo que Lloyd tinha um jantar de negcios, Sylvie partiu logo depois das cinco horas, combinando
busc-lo s dez, pela manh.
       Dirigiu at a casa da me. Foi abraada pela empregada antes de entrar no apartamento. Belinda, ao v-la, foi logo avisando:
       -  Querida, esta  a noite em que jogo bridge. Eu poderia cancelar o jogo, mas...
       -  Por favor, no faa isso.
       - Bem, ao menos poderemos jantar juntas e voc me contar as novidades. Como vai o querido Ran? Mas que excitante a herana dele... o ttulo...
       O sorriso de Sylvie sumiu.
       -  Ran est bem. No nos vemos muito. Estamos ambos ocupados.
       -  Oh, querida, mas que pena!
       Sylvie a encarou.
       - Houve um tempo em que voc o desaprovava.
       "E meus sentimentos por ele no eram aceitos tambm", complementou em pensamento, mas nada acrescentou.
       -  Mas querida, isso foi antes...
       -  Antes de qu? Antes de ele ter herdado o ttulo?
       - Bem, essas coisas realmente fazem diferena. Ran agora  um bom partido.
       -  Mame! Hoje em dia uma mulher no precisa de um bom partido. Pode se sustentar sozinha.
       - Toda mulher precisa de um homem que a ame - disse a senhora tristemente. - Ainda sinto falta de seu padrasto.
       Imediatamente a ira de Sylvie amansou. Sua me era fora de moda, muito inflexvel em suas idias, em seu jeito de pensar. Mas amara os dois maridos. E, embora
se envolvesse em diversos negcios, seus dias eram muito solitrios.
       -  Tem visto Alex e Mollie? - indagou, querendo mudar para um assunto mais alegre.
       -  Oh, sim - respondeu Belinda, com afeto. - Convidaram-me para ir a Otel Place no Natal.
       Horas mais tarde, ao se preparar para deitar-se, Sylvie imaginou o que Ran estaria fazendo. Provavelmente no iria para a cama sozinho. Fechou os olhos, aborrecida.
O que lhe importava com quem Ran passava as noites, e como?
       Importava demais, mas ningum devia saber disso.
       Mesmo antes de ter sido beijada, Sylvie soube da verdade. O modo como reagiu no instante em que pousou os olhos em Ran lhe mostrou o que tentara disfarar.
Aquela, definitivamente, no era apenas uma paixo infantil.
       Em algum lugar, de alguma maneira, certamente contra sua vontade, a paixo tornara-se um amor adulto, verdadeiro. Sentia falta de Ran, de estar a seu lado
em paz, ser amada por ele, gerar seus filhos... Tudo era to intenso que algumas vezes Sylvie no sabia como suportar os prprios sentimentos.
       Bastava viver um dia por vez, repetia a si mesma. Suportar cada minuto, cada hora, acreditar que tudo iria melhorar. Assim que o trabalho em Haverton Hall
terminasse e ela estivesse distante, seria capaz de reconstruir suas defesas e, com isso, sua vida.
       Mas, no fundo de seu corao, no acreditava muito naquilo.
       - Teremos de passar pela Reitoria primeiro - Sylvie avisou a Lloyd. - No estou com as chaves de Haverton Hall.
       - Por mim, tudo bem. Como voc e Ran esto se dando, a propsito?
       - Bem, ele  cliente da Trust - murmurou ela, como se isso explicasse tudo.
       - Ento no est apaixonada por ele...
       Sylvie conseguiu forar um sorriso. Lloyd no queria mago-la. Acalentava um interesse paternal por ela e com frequncia lhe dizia, meio brincando, que era
hora de Sylvie se apaixonar.
       No fazia idia do que ela sentia por Ran. Ignorava a paixo que lhe povoava o corao e dominava suas emoes.
       - Puxa, a paisagem realmente  linda! - comentou ele.
       - Haverton  ainda mais bonita.
       Imediatamente Lloyd comeou a falar de modo entusiasmado sobre a casa e sua arquitetura.
       Sylvie sentiu o corao gelar ao estacionar defronte  Reitoria e ver o Land Rover. Havia outro carro ao lado, e prontamente ela o reconheceu.
       Talvez sua ausncia tivesse dado a Ran e Vicky a oportunidade de um encontro a dois. Provavelmente decidiram alterar a rotina e passar a noite juntos ali.
       Ran lhe dera as chaves da Reitoria. Para no perturb-lo, ela destrancou a porta fazendo o mnimo de rudo. Para seu desconforto, entretanto, quando andava
pelo hall, Ran e Vicky desciam a escadaria.
       - Ol - falou Lloyd alegremente.
       Mas, antes que Ran pudesse dizer qualquer coisa, o telefone comeou a tocar.
       - Dem-me licena por um momento, est bem? - pediu ele, deixando os trs juntos e apressando-se at a biblioteca, para atender a ligao.
       - Acho que no nos conhecemos - Vcky comeou a falar com frieza, ignorando Sylvie e sorrindo de modo provocante para Lloyd.
       - Lloyd, esta  Vicky Edwards - murmurou Sylvie mecanicamente. - Lloyd  meu patro e...
       -  Ento voc tambm trabalha para a Trust? - comentou Vicky.
       -  Lloyd  a Trust - elucidou Sylvie, exasperada com as maneiras daquela mulher.
       - Oh... Mas que interessante! - respondeu ela com suavidade, imediatamente ficando ao lado de Lloyd e dando as costas para Sylvie. - Voc pode me contar mais
sobre a restaurao?
       Sylvie no teve muita certeza de como Vicky conseguiu juntar-se a eles na ida a Haverton. Lloyd obviamente no partilhava da mesma opinio a respeito da moa,
reconheceu ao ver o sorriso de adorao com que a brindava. Quando Ran se reuniu ao grupo, Vicky era toda seduo. Para Lloyd.
       - Ento voc est hospedado no Annabelle, hein? Ouvi dizer que  um luxo.
       - Certamente  - concordou ele, entusiasmado, - Minha sute  maravilhosa, no  Sylvie?
       - Sim, .
       Com o canto do olho pde ver que Ran a fitava e franzia a testa. Mas no era culpa sua se a amante dele mostrava interesse por Lloyd, um homem extremamente
rico e muito, muito charmoso.
       No passado, ele comentara alegremente sobre as mulheres que o perseguiam, avisando Sylvie de que fazia parte de seu trabalho mant-las afastadas.
       Para a idade, Lloyd era atraente. E estava em forma. Tinha cabelos grisalhos e, nos olhos, um cintilar caloroso. Mas preferi-lo a Ran... Ou ser que era a
conta bancria do dono da Trust que tanto atraa Vicky?
       Por fim, os quatro foram para Haverton Hall no Land Rover de Ran. Vicky fez beicinho para coagir Lloyd a sentar-se a seu lado no banco de trs.
       - Esta coisa  realmente pouco confortvel, Ran - queixou-se a moa, acrescentando para Lloyd em um tom muito doce: - Vivo lhe dizendo que devia comprar um
carro de quatro portas. Desde que o conheo, ele nunca teve um carro decente. Vocs, americanos, fazem modelos maravilhosos, luxuosos e confortveis.
       - Voc e Ran so velhos amigos, ento? Vicky tossiu.
       - Bem, ns certamente passamos diversas ocasies juntos. Mas s me mudei para Derbyshire h pouco tempo e, por coincidncia, descobri que Ran era um de meus
novos vizinhos. Ento estamos renovando a amizade.
       Mas que coincidncia!, pensou Sylvie com ironia, irritada com o comportamento de Vicky. O que Ran vira naquela mulher? Certamente podia enxergar como era
ftil e interesseira.
       Quando chegaram a Haverton Hall, Vicky fez uma grande representao ao descer do Land Rover, agradecendo a Lloyd efusivamente por ajud-la, e se apoiando
em seu brao ao se queixar do pavimento disforme.
       -  Voc devia usar sapatos confortveis como os de Sylvie - Ran falou.
       -  Sapatos assim? No, jamais! Sempre uso saltos altos - confidenciou a Lloyd. - Acho que so bem mais femininos.
       Ergueu um p, deixando bem  vista o modelo elegante.
       - Muito bonito - aprovou Lloyd. - Mas  melhor voc se apoiar em mim. No queremos que se machuque.
       Enquanto perambulavam pela casa, a irritao de Sylvie em relao a Vicky crescia. Cada vez que fazia um comentrio, a moa ria, chamando a ateno de Lloyd.
Tudo sempre acompanhado por um olhar de triunfo e desdm para Sylvie. Realmente, a mulher era impossvel!
       -  O Annabelle parece ser um hotel fabuloso. Eu adoraria conhec-lo. Planejo ir para Londres, um dia desses. Preciso de algumas roupas novas e no h nada
em Derbyshire.
       Vicky suspirou ao fazer o comentrio, j no caminho para o Land Rover.
       -   mesmo? O que acha de voltar comigo? Sylvie vai me levar ao aeroporto Manchester - Lloyd comeou a falar educadamente.
       -  Ir a Londres e ficar no Annabelle como sua convidada? - sugeriu Vicky. - Oh, mas que gentileza. Eu adoraria... - falou quase sem ar, a voz bem rouca.
       Sylvie, que imaginou que Lloyd apenas sugerira que viajassem juntos, pde apenas maravilhar-se com o sangue frio da mulher. Ela jamais ousaria comportar-se
daquela maneira. Mas Lloyd, longe de sentir-se aborrecido, sorria de ouvido a ouvido.
       Ela aguardou at que estivessem de volta  Reitoria e que Vicky fosse refazer a maquiagem para levar Lloyd a um canto, distante dos ouvidos de Ran, e avis-lo
discretamente:
       - Vicky  namorada de Ran, e no acho...
       -  Pelo que eu sei, Vicky  uma agente. Se quiser ir para Londres com Lloyd, cabe a ela decidir.
       Sylvie mordeu o lbio ao ouvir  interrupo de Ran. Ele estava do outro lado do hall, mas sua acuidade auditiva era extremamente aguada.
       - Acho que terei de ir para casa pegar algumas coisas - Vicky desculpou-se ao retornar. - No quero faz-lo esperar.
       Aborrecida, Sylvie a observou bater diversas vezes os pesados clios postios na direo de Lloyd.
       - Sem problemas - ele garantiu. - Preciso discutir algumas coisas com Sylvie e Ran. Use o tempo que precisar, minha querida.
       -  Espero que o Annabelle seja muito chique - murmurou Vicky.
       -  Uma mulher encantadora - comentou Lloyd calorosamente depois que ela partiu.
       -  Sim,  mesmo - concordou Ran.
       - To encantadora quanto uma piranha - murmurou Sylvie entre os dentes, antes de dizer a Lloyd: - Tenho oramentos preliminares para uma parte do trabalho
que ser feito aqui, se quiser v-los. Enviei algumas cpias por fax para Nova York.
       - Voc  muito eficiente - elogiou-a Lloyd, sorrindo - Vivo dizendo a ela? Ran, que precisa relaxar um pouco, divertir-se... Quando foi a ltima vez que passou
um dia fazendo compras?
       -  Fiz compras na Itlia - respondeu Sylvie.
       - Sim, eu sei. Eu estava l, lembra-se? E a levei para as lojas. - Virou-se para Ran. - Sabe o que ela fez? Disse-me que as roupas eram caras demais. O que
se faz com uma mulher como esta?
       - Mas elas eram mesmo caras demais!
       No momento, magoava-a saber que o chefe a comparava a Vicky Edwards. E logo na frente de Ran! Era bvio o que ambos pensavam: que de alguma maneira ela era
menos divertida do que a outra. Menos... mulher.
       Bem, que pensassem o que quisessem, decidiu com raiva. Estava ali para trabalhar e no para... flertar e bater clios postios.
       -  E uma garota maravilhosa - ouviu Lloyd dizer a Ran quando foi buscar os papis que lhe foram solicitados. - Mas trabalha muito e leva a vida com seriedade
demais.
       Aps deixar Lloyd e Vicky no aeroporto, Sylvie sentia a cabea latejar de tanto ouvir os comentrios "charmosos" da mulher. Em vez de retornar a Derbyshire,
cedeu a um impulso e foi para Manchester.
       Estacionou o carro do lado de fora do Emprio Armani, seguindo o endereo que um gentil motorista de txi lhe dera. Uma linda garota de cabelos escuros lhe
trouxe um terninho que ela vira exposto na vitrina.
       O modelo, apesar de mais barato do que os exclusivos, era caro. Mas ao virar-se para o espelho, mirando-se com a bela roupa, Sylvie admitiu que no poderia
resistir. Tambm acabou sucumbindo aos encantos de uma saia que combinava com o conjunto.
       Ento era tola, aborrecida e nada feminina, certo? Bem, podia no usar saltos altos e certamente no bater clios postios, mas ainda era uma mulher. Uma
mulher que ardia de desejo por Ran.
       Oh, sim, era uma grande mulher!

       CAPTULOIX

        Voc demorou. O que aconteceu?
       Sylvie se virou, sentindo-se culpada. At derrubou sua sacola com a marca Armani no cho. Chegara  Reitoria cinco minutos atrs e decidira ir diretamente
para seu quarto. Mas, ao alcanar o topo da escadaria, encontrou Ran.
       - Eu...
       - Esteve fazendo compras?
       - E se estivesse? - rebateu Sylvie, inclinando-se para pegar suas compras.
       Ran, porm, foi mais rpido. Inclinou-se, tocando a roupa suave e cara. Removeu o papel que a embalava. Estudou o que foi comprado e ento ergueu o olhar
para o rosto enrubescido de Sylvie.
       - Roupas novas, hein? Fico imaginando qual foi o motivo de t-las comprado...
       - O que escolho fazer com meu tempo e dinheiro no sua conta.
       Ran a ignorou.
       -  O que est tentando fazer? Competir com Vicky? Voc no pode. Simplesmente no tem os mesmos... recursos.
       Furiosa com Ran e consigo mesma, muito magoada, Sylvie explodiu.
       -  Se por "mesmos recursos" voc quer dizer que no uso minha feminilidade, sensualidade, de uma maneira barata para atrair os homens, fico feliz com o comentrio.
       - E mesmo? Ento por que foi comprar isto? - desafiou-a ele, indicando o terninho.
       - Comprei por impulso - respondeu, notando o olhar de cinismo de Ran. - De qualquer maneira, no  exatamente a espcie de roupa que uma mulher compraria
para... atrair um homem.
       - No? Ora, vamos, ambos sabemos que sim. H algo encantador e poderoso na viso de uma mulher usando terninho. Algo muito, muito sensual. Muito mais do que
um vestido bem justo ou um corpo meio exposto. Voc comprou esta roupa porque est com cime de Vicky.
       - Eu? Com cime dela? - Sylvie pegou a roupa e a colocou na sacola. - De jeito nenhum. Por que eu deveria estar com cime? Apenas porque anos atrs fui tola
o bastante, vulnervel o suficiente para me importar demais com voc, no significa que esteja com cime de sua amante.
       -  Minha amante? - Ran a interrompeu no instante em que ambos ficavam em p. - Eu estava me referindo ao fato de voc estar com cime porque teme perder Lloyd
para Vicky. Afinal, ele  seu amante.
       - Meu amante? Lloyd?
       Sylvie o encarou, estarrecida. No era possvel que Ran acreditasse mesmo que ela e Lloyd eram amantes. Estava apenas travando uma espcie de jogo cruel com
ela. Bem, teria de brincar sozinho.
       Pegou a sacola de compras, passou a seu lado, quase correndo para o quarto, e bateu a porta. Seu corao disparava de raiva e dor.
       Fechou os olhos e apoiou-se contra a madeira, sentindo-os queimar. Eram lgrimas de amor no correspondido.
       O que Ran estaria fazendo naquele momento? Rindo dela ao constatar seu cime, sua dor? Ou nem se dava o trabalho de considerar seus sentimentos?
       Tivera esperanas de que esse trabalho lhe propiciasse um meio de finalmente superar seu atormentado amor. Mas via que se tornava um monstro muito maior.
No havia esperana de conseguir derrot-lo.
       Como concentrar-se no que tinha de fazer se era forada a trabalhar to perto de Ran?
       Era impossvel, reconheceu meia hora mais tarde, ao sentar-se na escrivaninha e tentar se concentrar na programao das tarefas.
       No importava quanto tentasse amenizar a situao, imaginando que ela e Ran poderiam trabalhar em harmonia. Suas emoes no deixavam. Apenas vislumbrava
como a situao se tornaria pior e pior a cada dia. E ela estaria cada vez mais aprisionada na armadilha daquele amor.
       O melhor remdio, o nico disponvel, seria ir at Lloyd e lhe pedir que encontrasse outra pessoa para completar aquele projeto, admitiu com tristeza.
       No era esse o caminho que gostaria de trilhar. Orgulhava-se de seu profissionalismo e aquilo significaria confidenciar a Lloyd seus sentimentos por Ran.
Sabia que seria respeitada, mas mesmo assim,..
       Caso ficasse, a probabilidade era que mais cedo ou mais tarde cometesse um erro e prejudicasse o trabalho na casa.
       No seria fcil. Detestava decepcionar Lloyd. De fato, ao solicitar ao patro que arrumasse outra pessoa para tocar aquele projeto, estaria decepcionando
a si mesma. Mas temia, se ficasse, que sua auto-estima fosse destruda por completo.
       A raiva de Ran naquela noite mostrava os sentimentos que nutria por ela...
       Foi com o corao muito pesaroso que Sylvie se preparou para dormir. Haveria outras casas, outros projetos. Ningum alm dela viria a saber quanto estava
magoada porque outra pessoa teria a satisfao de restaurar o lar ancestral de Ran.
       Tambm seria outra mulher que, por fim, ficaria ao lado dele e geraria seus filhos em um ambiente de amor e orgulho, no decorrer da vida que teriam juntos.
       Ran no sabia ao certo o que o acordara. Mas sempre despertava, alerta, a qualquer som que no fosse familiar. Sua percepo e sentidos, treinados, tornavam-no
capaz de sentir tais mudanas at mesmo durante o sono.
       Ficou deitado na escurido, ouvindo. Os ponteiros iluminados do despertador indicavam uma e meia da manh. A casa no tinha sistema de alarme.
       Lucy, a cadela de caa que dormia no andar de baixo, teria latido se algum tentasse entrar na residncia. Para piorar, as luzes externas no haviam sido
acesas.
       Atravs da janela aberta de seu quarto pde ouvir o pio de uma coruja. Nenhum som estranho perturbava a paz da noite campestre.
       Comeava a relaxar quando ento ouviu aquilo. Uma porta se abrindo no piso superior. Imediatamente saiu da cama e
       pegou o robe. Vestiu-o, j que dormia nu, antes de sair do quarto silenciosamente.
       Imediatamente a avistou. Uma silhueta esguia e branca, que parecia flutuar em vez de caminhar pelo corredor. Por mais etrea que parecesse, Sylvie no era
um fantasma. Mesmo antes de alcan-la, Ran soube que estava tendo um ataque de sonambulismo. Todos os sinais estavam ali. Ele sabia o que fazer, dada sua experincia
anterior. Ento, por que era to difcil abra-la gentilmente, faz-la virar-se e conduzi-la de volta ao quarto? A melhor coisa a ser feita, como o haviam aconselhado
aps a primeira ocasio em que a vira vagando pela longa galeria de Otel Place, era gui-la gentilmente  cama, se possvel sem acord-la.
       Mas naquele momento, ao toc-la, Ran percebeu que Sylvie comeava a tremer violentamente, o rosto se virando na sua direo, o corpo enrijecendo quando tentou
faz-la virar-se. Prendendo a respirao, ele olhou para a porta de seu prprio quarto, entreaberta. Se pudesse lev-la para l... O velho mdico de famlia, no
Otel Place, recomendara que ela devia acordar naturalmente em vez de despertar de modo abrupto. Tambm informara que tais caminhadas noturnas podiam ser atribudas
a alguma espcie de distrbio ou trauma.
       Ran no precisava olhar muito adiante para descobrir a causa do distrbio daquela noite. E envolvia no apenas Vicky como tambm Lloyd.
       Ser que o homem no sabia o tamanho da sorte que tinha? Algo que Ran tanto ansiava por possuir?
       Sylvie ainda tremia, os olhos bem abertos, mas nada vendo. Ran no quis arriscar-se a acord-la. Com gentileza, conduziu-a para o quarto dele, evitando assim
faz-la virar-se, tratando-a como se fosse a garotinha do passado.
       - Est tudo bem - garantiu-lhe. - Tudo est bem... Vamos, agora.
       Ela se moveu, obedecendo ao comando, apoiando-se levemente em Ran. Se a pudesse levar para a cama sem acord-la, ficaria sentado a seu lado para ver se adormecia
e ento passaria o restante da noite em um dos outros quartos.
       Franziu a testa. Era tarde demais para arrepender-se do modo rude como falara com ela, movido pelo cime. Mas a viso daquela roupa, a constatao de como
ficaria naquele corpo, deixara-o to enfurecido que Ran perdera o controle.
       Com ternura, conduziu-a at o quarto e para a cama. A leve camisola era muito fina e branca, de um suave algodo. Com tal veste ela parecia quase uma garota.
To jovem... virginal...
       Fechou os olhos. No precisava comear a pensar e a recordar-se do passado doloroso naquele momento. Forou-se a afastar o pensamento, as lembranas e emoes
que o atordoavam.
       Passou a dedicar-se  tarefa de faz-la deitar-se na cama. Ao fazer isso, entretanto, esbarrou no criado-mudo. O som foi amplificado pela quietude do ambiente
noturno, deixando-o imvel e fazendo Sylvie acordar imediatamente.
       -  Ran! O que... estou fazendo aqui?
       - Voc teve um ataque de sonambulismo. Ouvi o barulho, encontrei-a caminhando...
       Sylvie contemplou o rosto de Ran. Nem por um momento duvidava de que ele dizia a verdade. Afinal, no havia motivo para t-la tirado da prpria cama e carregado
at ali. Havia? Mesmo assim, comeou a estremecer. Caminhava durante o sono somente quando sob um estresse muito intenso.
       -  Est tudo bem - ouviu-o dizer com ternura.
       Ele ainda a abraava. Sylvie podia sentir o calor daqueles braos mesmo atravs do robe que Ran usava e de sua fina camisola de algodo. Voltou a fit-lo,
os olhos muito arregalados e o rosto plido.
       - Est tudo bem, Sylvie - repetiu Ran para tranquiliz-la. O quarto dele ficava do lado oposto ao dela e era mobiliado de modo bem diferente. Tinha pesadas
peas em estilo georgiano que davam uma aparncia tradicional e masculina ao ambiente. O quarto combinava com Ran, considerou. Harmonizava-se  sua virilidade, segurana.
       Incapaz de se conter, virou-se e levantou a mo. Nem mesmo tinha certeza sobre se de fato queria toc-lo ou se o gesto fora simplesmente uma ameaa. Mas,
quando Ran virou a cabea em sua direo, seus dedos acabaram roando nos lbios dele.
       Sylvie podia sentir-lhe a respirao, atormentando-a com aquilo que nunca poderia acontecer. Desviou o olhar e ento, para seu espanto, sentiu Ran tomando-lhe
o pulso, acariciando-o com o polegar, prendendo-a, dando beijos nas pontas de seus dedos.
       - Ran... - protestou, mas ao dizer a palavra j se aproximava dele, instintivamente buscando o calor e o conforto de seu corpo.
       Era como experimentar uma poro do paraso. Aqueles braos a enlaavam de maneira gentil. No havia nada quee pudesse ser comparado  sensao maravilhosa
daquele beijo. Um beijo leve, terno, o beijo de um amante.
       Em silncio, Sylvie se uniu ainda mais fortemente  fortaleza daquele corpo, erguendo os braos para enlaar-lhe o pescoo, tremendo pelo esforo de no sucumbir
ao que sentia.
       Tinha os olhos rasos d'gua e percebia que grossas lgrimas comeavam a rolar por seu rosto.
       - Sylvie... - Havia emoo na voz de Ran, que erguia um dedo para tocar as lgrimas. - No chore... Por favor, no chore. Nenhum homem merece suas lgrimas.
       - Mas machuca tanto... - disse-lhe Sylvie, incapaz de conter seus sentimentos.
       De alguma maneira, a noite havia rompido as barreiras que ela tanto lutava por manter, a fim de proteger-se de seu amor por Ran.
       -  Detesto me sentir assim -sussurrou. - No gosto de amar tanto e ser to... rejeitada.  algo que machuca demais.
       A honesta admisso o tocou profundamente. Logo em seguida ele a abraava, ninava-a e lhe falava com voz rouca:
       -  No deve se sentir magoada, Sylvie. Por favor, no se machuque.
       E ento, de modo totalmente inesperado, Ran a beijou. No com a ternura mostrada antes, e sim com uma sensualidade, uma paixo que a deixaram sem flego.
       Sylvie sentia-se fragilizada, lnguida, ansiando por mais. Notava a determinao e as batidas aceleradas do corao de Ran. Podia no am-la, mas estava ali
em seus braos. Desejava-o. E podia sentir quo perto ele estava de perder o controle.
       Com vagar, perigosamente, veio-lhe a constatao de que talvez nunca viesse a possuir o amor de Ran, mas poderia ter aquela noite. Talvez concebesse uma criana...
o filho de Ran.
       Correspondeu aos carinhos, convidando-o, incitando-o, as mos se movendo por debaixo do robe, sentindo a firmeza dos msculos dos ombros e braos.
       Ran a queria. No podia mais deter-se. Precisava mostrar-lhe como devia ser o amor de um homem por uma mulher. Beijou-a no rosto, no pescoo, nos ombros.
Fez escorregar, delicadamente, a camisola. Mal conseguiu sufocar um gemido de desejo ao olhar as formas curvilneas banhadas pelo luar.
       Sylvie sentia-se derreter sob o efeito daquele olhar. Ran a desejava. Podia ver isso em seu olhar, sentir na fora de seus dedos, a traar-lhe o contorno
do corpo. Mesmo com os olhos fechados, podia sentir quanto era desejada.
       Com vagar comeou a tocar o corpo dele, meio trmula. Traou o profundo "v" deixado pelo robe entreaberto. Quando chegou ao n que segurava a pea de roupa,
ergueu um olhar amoroso e comandou, com voz rouca:
       - Tire-o.
       Ele obedeceu em silncio, jamais desviando o olhar do rosto de Sylvie. O robe desceu at o cho.
       Ela estudou cada centmetro do corpo magnfico, perfeito. Seu amor, sua vida, o pai de seu filho, o filho deles... Um arrepio passou por seu corpo.
       -  Ran!
       Disse o nome com urgncia, quase aspereza. Deu um passo em sua direo mas ele a deteve, circundando-lhe os pulsos e a mantendo levemente distante enquanto
a contemplava. Era palpvel o desejo em seu olhar. Arrepios de prazer a deixavam sem flego.
       Havia algo to perigosamente ertico em ficar ali, nua, as mos aprisionadas... Algo que alimentava os sentidos de Sylvie, seu prprio desejo. A tal ponto
que ela sentia a excitao pulsar fortemente em suas veias e foi forada a capitular.
       Tudo era to intenso... Pairava uma sensao de destino, como se todas as emoes anteriores, todo o amor que ela sentira por Ran a tivessem levado at aquele
momento.
       Ele podia no partilhar desse amor, mas estava diante de Sylvie. Contra toda lgica e racionalidade, ela sabia que o que aconteceria entre os dois naquela
noite seria precioso e quase sagrado, A criana que tanto ansiava por conceber seria especial, amada. Muito, muito amada.
       Era estranho pensar em como o destino trabalhava. Podia ver, como se estivesse ali, a pequena embalagem de plulas anticoncepcionais no banheiro, ainda contendo
aquelas que ela acidentalmente deixara de tomar desde sua chegada a Derbyshire. No fizera de propsito. No previra que aquilo fosse acontecer.
       - Voc  linda, sabia?
       Ele se inclinou para a frente e com vagar beijou-a no rosto, clios, lbios, de um modo quase reverencial. Ento moveu-se para os seios antes de soltar-lhe
os pulsos e abra-la.
       Sylvie sentia-se zonza, ardendo dos ps  cabea de tanto desejo. Mas Ran ignorava sua linguagem corporal, seu silencioso apelo pela intimidade. Tomou-a no
colo e com gentileza acomodou-a sobre o colcho.
       - Est tudo bem - disse com suavidade. - Tudo est bem.
       Ran acariciava os ps de Sylvie, massageando-os. A sensao dos lbios acariciando seus dedos era inesperada e ntima. Em seguida, os beijos subiram lentamente,
em uma trilha de fogo, at a regio atrs dos joelhos e s ento alcanando a maciez das coxas.
       Durante todo o trajeto, a lngua umedecia a pele fresca, causando uma excitao intensa. Incapaz de deter-se, ela gemeu com todo o desejo de seu corao.
Mas, embora ele tivesse erguido a cabea e a fitado, embora Sylvie houvesse contemplado a evidncia do desejo de Ran, sua reao no foi mover-se para cima de seu
corpo, como ela gostaria que acontecesse.
       Com os polegares, Ran traou um V entre as coxas femininas antes de mergulhar em sua intimidade, sentir seu cheiro, pronunciar seu nome vezes e vezes ao acarici-la.
       A excitao a ensandecia, explodia dentro dela em uma srie de espasmos de prazer que a deixaram trmula e zonza. Inclinou-se para a frente e buscou Ran,
cobrindo-o de beijos. Enlaou-o com braos e pernas, prendendo-o, sabendo instintivamente que ele seria incapaz de resistir a seus encantos.
       A sensao de t-lo em seu corpo era intensa. Sylvie gritou quando Ran seguiu-lhe o ritmo, urgindo por ser possuda mais profundamente, o olhar pleno de emoo
ao sussurrar-lhe o nome.
       -  Sim, Ran, sim - murmurou, mexendo os quadris, convidando-o a possu-la mais intimamente, como somente uma mulher apaixonada convidava um homem a fazer.
       Instintivamente, sabia que o que partilhavam ia alm do sexo. Cada investida de Ran os deixava mais prximos da eternidade, da prpria criao.
       Sylvie sentiu seu corpo se abrir completamente para receb-lo e ficou de olhos bem abertos, fixos em Ran ao lhe implorar.
       - Agora. Deixe que seja agora...
       Ran se satisfez e abraou-a ainda mais, agarrando-lhe os cabelos, deixando-a sentir o cheiro msculo de sua pele.
       -  Faz tanto tempo... - disse ele, com o corao ainda aos saltos.
       - Sim, faz.
       No havia necessidade de Sylvie mentir, fingir. Mesmo que fosse apenas temporariamente, as barreiras entre os dois haviam sido banidas por aquela experincia
maravilhosa.
       Era estranho, mas ela quase se sentia orgulhosa da verdade, de am-lo to intensamente a ponto de nunca ter sido capaz de se entregar a outra pessoa.
       - Sexo por sexo simplesmente no tem valor para mim...
       Sylvie ergueu a cabea e o fitou com insegurana. O que Ran estava pensando? Ser que desejava que ela tivesse sido menos franca, fingido que o que haviam
acabado de partilhar nada significava? Que ele nada significava?
       Mas quando mergulhou naquele olhar, notou ser impossvel ler apropriadamente seu significado. Apenas viu o leve sorriso de Ran antes de tocar-lhe o rosto
com gentileza.
       - Eu quis dizer que faz muito tempo para mim, Sylvie... Que eu no tinha... Que eu no pude... Eu estava tentando explicar... Desculpar o fato de... no ter
sido to controlado quanto devia, anteriormente.
       - Voc esteve... timo - Sylvie lhe disse com sinceridade.
       - Temo estar prestes a lhe dar outra demonstrao de como perco o controle quando estou a seu lado - disse-lhe, gemendo baixinho. - Sylvie, Sylvie...
       Ento Ran a tomou nos braos, beijando-a com paixo  medida que seus corpos novamente se uniam.
       O dia j corria pleno quando Sylvie acordou. Enrubesceu ao abrir os olhos e encontrar Ran apoiado nos cotovelos, a observ-la.
       - H quanto tempo est acordado? - perguntou, agarrando a coberta.
       Seu enrubescer tornou-se mais profundo quando comeou a lembrar-se de todos os eventos da noite anterior.
       - Tempo bastante. - Ele inclinou-se para a frente e sussurrou contra os lbios de Sylvie, enquanto os dedos lhe acariciavam os seios. - Quando a toco aqui,
voc geme bem baixinho.
       - No quero ouvir.
       Na noite anterior, ela e Ran haviam feito amor. Ignorara todas as regras de dignidade e bom senso, bem como a prpria preservao. Jurara nunca mais fazer
isso. Mas naquela noite, perdida nas guas profundas do amor e do desejo, rezara para conceber um filho de Ran, E como!
       Um arrepio profundo a tomou. A lgica lhe dizia ser cedo demais para qualquer pessoa saber o resultado daquele ato. De alguma maneira, entretanto, ela sabia.
Sentia que a semente que se tornaria o filho de Ran crescia em seu ventre.
       Imediatamente seus olhos ficaram rasos d'gua. Lgrimas de amor pela criana que, sabia, seria sua vida. E tambm porque essa criana jamais conheceria o
amor do pai.
       Sylvie decidira que o filho seria apenas seu. Ran jamais saberia da existncia daquele beb. Afinal, um filho seria apenas um fardo, uma obrigao para ele.
       No, aquela criana no deveria saber que a me jamais fora amada por seu pai.
       -  Voc est chorando.
       Ela imediatamente tentou afugentar as lgrimas,
       -  Isso passa.
       -  Eu realmente compreendo... Deve ser difcil amar um homem que no...
       - ...que no me ama - Sylvie complementou a frase. - Sim.  isso mesmo. Mas sou uma mulher agora, no mais uma criana. E, se escolhi amar a pessoa errada,
 um direito meu. A ltima coisa de que preciso  de sua pena - falou de cabea erguida.
       - A noite passada no devia ter acontecido, mas no pude me conter.
       - Voc disse isso da primeira vez, tambm. - Sylvie fitou o nada enquanto falava, sabendo muito bem que mentia. Teria o motivo mais sublime do mundo para
jamais se esquecer. - Devo voltar a meu quarto e me vestir antes que a sra. Elliott chegue -- disse-lhe com formal dignidade. Vendo que ele continuava a encar-la,
acrescentou: - Quero que voc fique de costas, para que eu possa sair da cama, - O olhar de Ran a. fez enrubescer. - Sim, sei que voc j viu... mas aquilo foi na
noite passada. E agora  diferente.
       -  Sim, sem dvida - concordou ele em tom pesaroso e ento, para alvio de Sylvie, deu-lhe as costas.
       Ela escapuliu da cama, apanhou a camisola e a vestiu antes de caminhar at a porta. Abriu-a sem olhar para trs porque sabia que, caso fizesse isso, no sairia
dali.
       A noite anterior fora a mais perfeita e maravilhosa de toda a sua vida. Mas havia acabado. Em breve tambm terminaria, se Lloyd concordasse, seu perodo de
estadia ali.
       E somente Sylvie saberia que, quando deixasse Haverton Hall, quando deixasse Ran, estaria levando uma pequena e muito preciosa parte dele.

       CAPTULO X
       Sinto perturb-la, mas Ran falou que voc poderia querer um pouco de caf.
       Sylvie forou um sorriso de boas-vindas e aceitou a bandeja oferecida pela sra. Elliott.
       Estivera trabalhando na biblioteca durante toda a manh, esforando-se por avaliar contas e custos. No havia tomado caf da manh e devia estar com fome.
A nica necessidade que sentia, entretanto, era de ter o amor de Ran. Mas ele deixara bem claro que isso Sylvie jamais poderia ter.
       Meia hora mais tarde, prestes a sair para Haverton Hall, sentiu o toque do telefone celular. Ficou surpresa ao ouvir a voz de Lloyd do outro lado da linha.
       -  Eu no esperava ouvir falar de voc hoje. Achei que estaria... ocupado.
       -  Bem, eu tambm pensei que fosse estar - respondeu ele com um tom entristecido. - Como dizem por a, no h tolo igual a um tolo velho. Mesmo assim, foi
divertido enquanto durou. E acho que o dinheiro gasto valeu a pena. Sentirei sua falta, querida, quando voltar para Nova York.
       -  Tambm sentirei saudade. Mas antes preciso falar com voc. No posso ficar aqui. Eu... quero voltar para Nova York.
       Sylvie mordeu o lbio inferior e advertiu-se para no perder o controle. No tivera a inteno de falar daquela maneira. Convencera-se de que seria melhor
esperar, estudar bem todos os argumentos e s ento conversar com Lloyd.
       Mesmo assim, l estava ela, deixando as emoes fluir em disparada, capitulando  necessidade urgente de se proteger da dor de estar to prxima, fisicamente,
de Ran.
       -  Querida, voc parece triste. Que aconteceu?
       - No posso discutir isso pelo telefone. Preciso v-lo. Oh, Lloyd, eu sinto tanto...
       Parou de falar porque sua voz ficou embargada pelas lgrimas.
       -  No fique assim - disse-lhe ele com gentileza e ento, para alvio de Sylvie, acrescentou: - Estarei a assim que ajeitar as coisas por aqui. Ento conversaremos.
       -  Oh, que bom!
       Era muito tpico de Lloyd deixar tudo de lado para v-la, reconheceu Sylvie aps o trmino da ligao. Ele compreenderia, sabia que sim, mas sentia-se culpada
por deix-lo em situao difcil.
       A porta do estdio de Ran estava aberta e ele entrou no hall bem no instante em que Sylvie passava por ali. Deu uma olhadela para o telefone que ela ainda
segurava, deixando a ntida impresso de ter ouvido sua conversa com Lloyd.
       - Lloyd est voltando.
       -  Percebi.
       Parecia haver um qu de raiva na voz de Ran. Sylvie no conseguiu encar-lo. A ternura partilhada na noite anterior parecia ser fruto apenas de sua imaginao.
Devia ter nascido de seu prprio desejo.
       - Tenho de ir para Haverton - falou com voz tremula, ao passar por ele.
       Ran a observou ir. Cortava-lhe o corao ver a dor no olhar de Sylvie. Na noite anterior, ela se entregara por causa do desejo. Apenas para satisfazer a uma
simples necessidade humana.
       Fizera isso movida pelo amor que sentia por um homem que a deixara para ficar com outra mulher. Ser que Lloyd tinha conscincia do que fizera, ou simplesmente
achava que sua riqueza lhe dava o direito de ignorar os sentimentos de outras pessoas?
       Ser que achava que o prejuzo causado a Sylvie, a mgoa que lhe impunha, simplesmente no importava?
       No dia anterior ele a deixara para ficar com outra pessoa. Minutos atrs, entretanto, dissera que voltaria.
       -  Preciso ver voc - ouvira Sylvie sussurrar de modo emocionado.
       Ran fechara os olhos para suportar tudo aquilo. Conhecia muito bem aquela necessidade, desde muito antes da noite em que tomara Sylvie nos braos pela primeira
vez, quebrando todas as promessas que fizera a si mesmo.
       Lembrou-se de quando foi v-la no aeroporto, na partida para os Estados Unidos, Fora uma deciso impulsiva, pela qual culpou-se e desprezou-se. Terminou indo
para casa, para uma bebedeira. Essa lembrana no o deixava nem um pouco orgulhoso. Fora, entretanto, a nica maneira de anestesiar-se da dor.
       Nem mesmo para Alex, seu melhor amigo, fora capaz de falar sobre seus sentimentos, sobre quanto a amava. Alex era, afinal de contas, irmo de Sylvie.
       Julgara-se preparado para enfrentar a realidade de saber que ela passaria a vida com outra pessoa. Mas, antes, a realidade estava a uma distncia segura...
       Saber que ela amava Lloyd era uma coisa; testemunhar aquele amor, abraando-a ao v-la chorar por ele, ter de ouvir seus apelos para que retribusse seu amor...
Nada o havia preparado ou protegido para aquela espcie de dor.
       E agora Lloyd estava a caminho da Reitoria para v-la. Ser que ela lhe contaria sobre a noite anterior, a intimidade partilhada?
       No escuro da madrugada, quando a abraara e tocara, quando sentira-lhe a reao do corpo, julgou detectar algo muito mais profundo do que sensualidade. Parecia
ir alm da satisfao fsica e sexual.
       Abriu os olhos e caminhou at a janela de seu estdio para contemplar o jardim. Havia muito tempo seus ancestrais tinham planejado aquele local, quando moravam
na casa. Naquela poca, era obrigao do ltimo homem da linhagem da famlia produzir um filho, para legitimar a herana.
       Mas isso ele jamais faria. No poderia se casar com outra mulher, pois amava Sylvie. No seria bom para ele, nem para a esposa. Ento no haveria um herdeiro
legtimo.
       O nico filho que ele um dia teria seria aquele que haviam criado na noite anterior. O filho dele. Mas no podia compelir Sylvie a deix-lo participar da
vida daquela criana. No quando sabia que ela no o amava.
       Por duas vezes Sylvie recorrera a seus braos em busca de conforto. E, nas duas, amava outros homens. No deveria haver uma terceira ocasio.
       Era provvel que Lloyd chegasse antes de a noite cair. Ran simplesmente no poderia suportar estar ali para v-lo reunir-se a Sylvie.
       Voltou para sua escrivaninha e pegou o telefone.
       Alex estava acomodado na linda sala de estar que sua esposa decorara com tanto carinho. Sorria, apreciando o filho. Tomou-o nos braos, capturando o olhar
plcido de Mollie.
       Alex a fitou com muito amor. Ela estava no incio da gravidez do segundo filho.
       - Acabei de receber um telefonema de Ran.
       -  Como ele est? E Sylvie?
       - Ele quer vir para c durante alguns dias. Aparentemente quer discutir idias para tornar suas terras mais produtivas.
       - Acha que ele e Sylvie vo acabar se dando bem? - Mollie indagou com ansiedade.
       Alex arqueou as sobrancelhas.
       -  Por que me pergunta?  voc quem acha que os dois esto loucamente apaixonados um pelo outro.
       - Eu no acho, eu sei - corrigiu-o Mollie. - Mas eles so to teimosos e determinados a no admitir seus sentimentos...
       - Alguma vez j lhe ocorreu que voc pode estar enganada? - Alex lhe perguntou com ternura.
       -  No, porque no estou. Voc  irmo de Sylvie, e Ran, seu melhor amigo. Tem obrigao de fazer algo para ajud-los.
       -  Oh, no! De jeito nenhum. Ambos so adultos.
       - Talvez. Mas esto se comportando como crianas. Temos de fazer alguma coisa. Voc viu o modo como Sylvie ficou por causa de Ran quando fomos v-la em Nova
York... Era de cortar o corao. E Ran no estava muito melhor.
       -  Eles esto em Haverton Hall juntos. Sozinhos. Se isso no lhes der oportunidade...
       - Talvez isso no baste. Pode ser que precisem de algum com quem conversar, uma pessoa que lhes mostre o caminho - sugeriu Mollie, com um sorriso.
       - Nem pensar! - exclamou Alex, com firmeza.
       Mas Mollie j havia se decidido. De uma maneira ou de outra, algo devia ser feito. E, se Alex no pudesse ser persuadido a tomar uma atitude, ento cabia
a ela fazer isso.
       Comeou a pensar no assunto com uma determinao especial.
       No final daquela tarde Sylvie retornou de Haverton Hall e soube, pela sra. Elliott, que Ran precisaria se ausentar por diversos dias.
       -  Ele disse para onde ia ou quando retornaria? - indagou Sylvie.
       - Apenas falou que telefonaria.
       Ser que Ran realmente fora tratar de negcios ou partira por sua causa? pensou Sylvie com tristeza. Ele fora gentil quando conversaram sobre a dor de um
amor no correspondido. Mas isso no alterava o fato de no am-la e de sua presena lhe criar problemas.
       Bem, no continuaria ali por muito tempo. Estava determinada a delegar o projeto de Haverton Hall a outra pessoa.
       Lloyd telefonou enquanto ela estava no andar de cima, atualizando arquivos. Explicou-lhe que se atrasaria um pouco alm do esperado e que j seria tarde da
noite quando chegasse a Derbyshire.
       Ran instrura a empregada a preparar um quarto para o visitante. No ambiente ao lado do de Sylvie.
       O telefone celular tocou e ela atendeu, esperando ouvir a voz de Lloyd. Mas era sua cunhada.
       - Mollie, como vai? - perguntou, satisfeita.
       -  Mais ou menos. Espere s at ser sua vez. No  brincadeira. Tnhamos salmo no jantar e  meu prato favorito. Mesmo assim, no pude dar uma nica garfada.
       Sua vez! Sylvie agarrou o telefone com fora. Como Mollie e Alex reagiriam quando ela lhes contasse que estava grvida? Certamente perguntariam quem era o
pai. Ambos aceitariam sua deciso de manter a identidade do pai da criana em segredo. Mas mesmo assim...
       - Como vo as coisas por a? - perguntou Mollie. - Como voc e Ran esto se dando?
       O silncio que se seguiu disse muito aos ouvidos intuitivos de Mollie,
       - No estamos nos dando bem. - Fez uma pausa e decidiu contar sua deciso. Mollie, apesar da distncia que as separava, era sua melhor amiga. - Resolvi pedir
a Lloyd para me tirar deste projeto. Minha estadia aqui no vai dar certo. Ran e eu...
       - Voc ainda o ama, no  mesmo?
       Por um momento Sylvie achou que no seria capaz de responder. Mas quase contra sua vontade sentiu-se corflpelida a ser honesta.
       -  Sim, eu o amo. Mais do que nunca. Ele  tudo o que eu sempre quis. O nico homem que amei, o nico que irei amar. No sentido mais pleno da palavra. - Respirou
profundamente. Comeara o relato e teria de termin-lo. - O nico homem que me tocou... que fez amor comigo... foi Ran. Mas ele no me ama. Nunca amou. Da primeira
vez, estava com raiva. Mas ontem foi to cheio de amor, ternura, significado... Mas na realidade ele estava apenas me consolando... Ele...
       -  Ele lhe falou isso?
       - No expressou em palavras. Disse como era doloroso amar algum que no retribua esse sentimento e... sobre como no h necessidade de sentir vergonha desse
amor. De precisar da pessoa. - Sylvie sentiu uma dor to forte no peito que julgou-se prestes a irromper em lgrimas. - No posso ficar aqui, Mollie - disse com
voz embargada. - Temo o que possa acontecer, o que eu possa falar e fazer. Ran foi to gentil e terno... Eu quero guardar esta lembrana.
       -  Ele deve sentir alguma coisa por voc.
       -  S porque me levou para a cama? Ele me queria, sim, mas... Lloyd veio para c e levou a mais recente amiga de Ran para Londres.
       -  Ele levou voc para a cama porque queria sexo.  isso que est dizendo?
       -  Bem, acho que foi a grande motivao.
       - Mas ele deve sentir alguma coisa por voc. Se realmente no se importasse, no quisesse se envolver, a ltima coisa que faria seria permitir que uma conversa
to ntima assim acontecesse.
       -  Sim... No... Oh, eu no sei. Sei apenas que estou com medo de ficar aqui. No posso lidar com isso, Mollie.  mais seguro sair daqui.
       -  Voc lhe contou que est partindo?
       - No exatamente. Ele sabe que Lloyd vem a Derbyshire para me ver, mas no est aqui no momento. A empregada falou que ele teria de se ausentar por uns dias.
Mas no disse para onde iria ou quando retornaria... Suspeito que esteja tentando me evitar.
       -  Por acaso voc j lhe perguntou como se sente a seu respeito, Sylvie?
       Por um momento ela ficou chocada demais para responder.
       -  Claro que no. Eu no poderia. Como? Voc teria perguntado isso a Alex?
       - Talvez no. Mas meu relacionamento com Alex  muito diferente.
       -A diferena  que voc e Alex se amam. Bem, preciso desligar. Simplesmente no consigo mais conversar sobre isso.
       Finalizou a ligao e rezou para que Lloyd chegasse logo. Queria deixar Derbyshire antes do retorno de Ran.
       Como em resposta, viu as luzes de um carro se aproximando da casa. Correu para a janela de seu quarto. Respirou profundamente e foi para o andar de baixo,
encontrar-se com Lloyd.
       Meia hora mais tarde, j havia contado tudo a ele. O amigo lhe estendeu um leno e indagou, com expresso muito sria:
       - Voc realmente o ama tanto assim?
       -  Demais. Uma tolice, no  mesmo? - disse Sylvie com voz trmula. - Detesto decepcionar voc, mas no posso ficar.
       - No est me decepcionando, querida. Sua felicidade significa muito para mim. Acho que encaro voc como a filha que nunca tive. Se eu no tivesse aquela
reunio, aguardaria para lev-la de volta comigo.
       -  Voc no pode fazer isso. Finalizarei uma parte do trabalho enquanto Ran estiver ausente. O mnimo que posso fazer  deixar tudo em ordem para a pessoa
que vai dar prosseguimento s tarefas.
       -  Vejo-a em Nova York ento, querida - disse-lhe Lloyd antes de abra-la carinhosamente.
       Pouco tempo depois, ele partiu. Em breve Sylvie tambm iria embora. Para sempre.

       CAPTULO XI
 um lindo lugar, no  mesmo? - comentou Mollie ao caminhar pelo gramado para juntar-se a Ran.
       Ele estava contemplando a piscina situada no centro da pequena clareira.
       - Maravilhoso.
       - Eu queria ter visto Sylvie no dia que ela caiu na lama, quando vocs estavam limpando o lago. Quantos anos ela tinha na ocasio, Ran?
       -  Dezessete - respondeu imediatamente, fazendo Mollie brind-lo com um olhar repleto de significados.
       - Hum... Quando conversamos, na ltima vez em que Sylvie esteve em casa, ela disse que ficou aborrecida porque a me insistiu em que deixasse Otel Place.
Queria ficar aqui com Alex aps a morte do pai dele, mas Belinda no permitiu.
       -  Era uma garotinha prestes a se tornar mulher. A casa onde morava um solteiro no era lugar para ela.
       - Mesmo se um daqueles solteiros fosse algum que amasse muito profundamente? Uma pessoa que ela jamais deixou de amar... e que ainda ama? - sugeriu Mollie.
       -  Alex achou melhor que ela ficasse com a me - disse-lhe Ran.
       - Eu no estava me referindo a Alex. Sylvie queria ficar aqui porque amava voc,
       - Ela era uma criana - disse com raiva, virando-se para que Mollie no pudesse ver seu rosto. - E o que conhecia do amor? Era to jovem... e eu, apenas o
gerente da fazenda. Eu no podia...
       - ...deix-la saber que tambm a amava? - sugeriu Mollie com suavidade.
       Ran virou-se e a encarou.
       -  O que eu queria dizer era que no poderia lhe dar o estilo de vida a que estava acostumada. E, mesmo que isso fosse possvel, ela era jovem demais. Uma
criana.
       - No era uma criana aos dezenove anos, quando vocs fizeram amor pela primeira vez. Voc foi o primeiro amante dela, mas deixou-a.
       - No! Foi ela que me deixou. Disse-me que s se entregara a mim porque Wayne no queria uma virgem.
       - E voc acreditou?
       - Ela estava beijando Wayne quando cheguei. Se voc tivesse visto os dois...
       - As aparncias enganam - ponderou Mollie. - As pessoas podem expressar algo muito diferente do que sentem quando acreditam que a exposio dos verdadeiros
sentimentos pode lhes gerar rejeio e dor. - Suspirou e continuou a encar-lo. - Afinal de contas - acrescentou baixinho -, voc escondeu o fato de amar Sylvie,
no  mesmo?
       Ran imediatamente ficou tenso. - Alex lhe contou?
       - Nem precisava. Eu percebi.
       - Como?
       -  Conheo o tipo de homem que voc . Observei o modo como se comporta em relao a Sylvie. Por que no diz a ela como se sente?
       -  Ela sabe. Mollie, aprecio sua preocupao. Talvez um dia, quando jovem, Sylvie tenha me amado. Mas tudo mudou. J no  mais uma garota. Houve outros homens
em sua vida.
       - Que outros homens? - desafiou-o Mollie e ento acrescentou, antes que ele pudesse responder: - Voc  o nico amante que Sylvie j teve. O nico que ela
quis.
       No  verdade - negou Ran, mas Mollie observou como empalidecia. - Ela e Wayne eram amantes e agora h Lloyd.
       -  Wayne e Sylvie nunca foram amantes. Ela me contou isso naquela poca e sei que era verdade. E repetiu a mesma coisa muito recentemente.
       - Oua, ainda me sinto da mesma maneira em relao a ela, no importa quantos homens houve em sua vida. Mas no posso, no irei me impor ou impor meu amor
a Sylvie. Ela ama Lloyd.
       -  Sim, ama. Como amigo, no como homem.
       - Voc no diria isso se a ouvisse conversando com ele ao telefone, como eu ouvi, implorando-lhe para ir v-la.
       Mollie respirou profundamente. Antes de seguir Ran at ali para conversar, decidira impor alguns limites a si mesma. Aconselhara-se a no ultrapassar aquela
linha divisria, pois certas confidncias no deviam ser partilhadas.
       Agora, entretanto, sabia que teria de quebrar a promessa feita a si mesma.
       - Pois ela implorou a Lloyd que fosse v-la porque queria desistir do projeto de Haverton Hall - declarou baixinho. - Ela est com muito medo. Com medo do
que sente por voc. Disse-me que no aguentava mais. Falou ser impossvel fazer o trabalho apropriadamente, pois s consegue pensar em voc. Quer que Lloyd delegue
o trabalho a outra pessoa. Ento, Ran, tudo est em suas mos. Se voc a ama...
       -  Vi a maneira como ela reagiu quando Lloyd a deixou para ir a Londres com Vicky.
       -  Lloyd nunca foi amante dela. Sylvie no o ama desse jeito. Mas se duvida de minhas palavras, se realmente quer saber da verdade, apenas uma pessoa pode
convenc-lo, no  mesmo? Se no acredita em mim, pense: por que uma mulher, qualquer mulher, no apenas encorajaria um homem a fazer amor com ela aps ter se mantido
reclusa durante anos e quando acreditava que esse homem no lhe dava valor? Por qu? Porque suas prprias emoes so fortes e poderosas demais, saindo de seu controle.
Poucas emoes humanas se enquadram nessa categoria. - Observou-o com muita ateno. - Oh, e a propsito... - Mollie fez uma nova pausa e comeou a distanciar-se.
- Eu quase me esqueci. Sylvie me telefonou na noite passada. Falou com Lloyd e ele concordou com sua partida de Haverton. Disse que pode ir embora quando desejar.
Ela agendou um vo para Londres amanh.
       -  O qu?
       - Algumas vezes, para uma mulher, ser amada no basta. Precisamos de algo mais. E preciso que nos digam, mostrem, deixem-nos ver, ouvir, tocar e sentir.
       - O que aconteceu com Ran? - Alex indagou a Mollie com  curiosidade, meia hora mais tarde. - Acabei de cruzar com ele no gramado. Falou que retornaria a Haverton.
Disse ter algo urgente para fazer.
       - Ele disse isso?
       -  O que est acontecendo? O que voc fez?
       -  Oh...
       Mollie levou a mo at a boca, levantou-se e disparou para o banheiro.
       Enjo matinal... Mas que eufemismo, decidiu Alex. A pobre Mollie sofria daquilo o dia todo. Com simpatia levantou-se e a seguiu.
       As malas de Sylvie estavam prontas, assim como um bilhete para Ran, explicando que outra pessoa tomaria conta do trabalho e que todos os arquivos estavam
em ordem.
       Nada mais havia a fazer alm de entrar no carro alugado e dirigir at o aeroporto. Mesmo assim, Sylvie no se sentia compelida a ir.
       Com insegurana subiu a escadaria, fazendo uma pausa do lado de fora do quarto de Ran. Tinha a casa toda para si. A sra. Elliott tirara o dia de folga.
       Em um impulso, abriu a porta e entrou. O quarto estava exatamente como se recordava. Aproximou-se da cama, passando com suavidade a mo pelo travesseiro.
       Lgrimas queimavam em seus olhos, mas ela se recusava a liber-las. Caminhou com determinao em direo  porta e saiu.
       Do lado de fora o ar estava quente. Ela podia ver as flores enfeitando a passagem de carros. Virou-se e deu uma ltima olhadela  casa. Haverton era uma manso,
mas a Reitoria, um verdadeiro lar. Tocou com gentileza a parede antes de se apressar em direo ao carro.
       Havia feito reserva em um hotel de Londres para passar a noite. Pela manh voaria para Nova York.
       Era hora de partir. No havia, afinal, motivo algum para ficar.
       Durante o trajeto, Ran se censurou. No devia estar fazendo aquela viagem. Mollie se enganara.
       - Se Sylvie realmente me ama, nada a impediria de dizer isso - dissera ele.
       - Nada, alm do fato de ela acreditar que voc no a ama - ponderara a esposa de Alex.
       Ser que Mollie acreditava naquilo? Como poderia? Ainda outra noite, quando abraara Sylvie, indiretamente se referira a seus sentimentos por ela.
       A tenso judiava de seus ombros e pescoo. A sensao de urgncia no lhe permitira nem sequer fazer uma pausa para descansar. As colinas pareciam ferver
debaixo do sol de fim de vero.
       Viu o carro alugado antes de avistar Sylvie. Seu corao disparou de alvio ao perceber que ela ainda estava ali. Ento a viu.
       Sylvie usava o lindo terninho que adquirira na Arrpani e carregava a pasta com documentos. Instintivamente, Ran premiu com mais fora o acelerador.
       Dirigia a tamanha velocidade que a princpio Sylvie no conseguiu decifrar a forma do carro, quanto mais o motorista, graas  nuvem de poeira que rodeava
o veculo.
       Mas de alguma maneira sabia que era Ran. Imediatamente, por alguma tola razo, seu primeiro impulso foi ir embora antes de ser vista.
       Mas, assim que abriu a porta do automvel, Ran j parava o Land Rover, bloqueando sua sada. Desceu e disparou em sua direo.
       -  Eu... estou indo embora.
       - Por qu? - exigiu saber, percebendo o tom de voz rouco e nervoso de Sylvie. - Por causa de Lloyd? Porque  seu amante e voc no suporta ficar longe dele?
       Ela ficou chocada. Somente aps alguns segundos conseguiu controlar o espanto.
       - Lloyd no  meu amante.
       - Ento por que ficou to aborrecida quando ele levou Vicky para Londres?
       -  Eu... Ela... Era bvio o que Vicky estava fazendo. Mas voc a defendeu, encorajou-a a flertar... Elogiou-a.
       -  Eu mal conseguia esperar at o momento em que Vicky tirasse Lloyd do caminho para voc enxergar que ele no a merece.
       Sylvie o encarou. O sol estava muito quente, e talvez por isso se sentisse to atordoada. No haveria outra explicao para o olhar que imaginara ter visto
em Ran.
       -  Voc no pode realmente achar que Lloyd e eu somos amantes - disse com voz trmula. - Ele  meu amigo. Gosto dele. Eu o amo como pessoa sim, mas... - Deteve-se
e umedeceu os lbios com a ponta da lngua.
       - No faa isso. Venha comigo - pediu, pegando-lhe a mo. Apressou-a em direo ao segmento de jardim que ela ainda no havia explorado. Um lugar privativo,
inteiramente dedicado ao cultivo de rosas brancas.
       - Meu tio-av plantou essas rosas em memria  nica mulher que amou. Ela morreu pouco antes da data marcada para o casamento. A meu tio s restaram lembranas.
- Observou-a com ternura antes de prosseguir: - No quero ter apenas lembranas, Sylvie. Eu amo voc. Sempre a amei e sempre amarei. No lhe disse isso antes porque
no me julguei no direito. Primeiro voc era jovem demais, ento havia Wayne e depois...
       - Voc me ama? Mas na noite anterior disse que no me amava. Falou que sabia como era doloroso amar sem ser correspondido...
       -  Eu estava tentando dizer quo doloroso, para mim, era saber que voc no retribua esse amor.
        Por um momento entreolharam-se em silncio. E ento, de modo inseguro, como se tivesse medo de acreditar no que ouvia, Sylvie ergueu a mo e a levou at
o rosto de Ran, tocando-o levemente.
       - Voc me ama? Tenho medo de acreditar que... - Parou de falar e mordeu o lbio, tentando impedi-lo de tremer.
       -  Oh, Sylvie, o que eu fiz, o que ns fizemos? Eu a amava quando voc tinha dezesseis anos, mas no me julgava no direito de sentir aquilo por voc. Eu a
amava quando completou dezessete e voc quase me deixou louco com o que, com tanta inocncia, me oferecia. Eu a amava quando voc tinha dezenove e me ofertou sua
virgindade e seu corpo, mas negou-me seu amor.
       -  Pensei que voc me detestasse - sussurrou Sylvie. - Estava to bravo comigo quando vim a Otel Place com Wayne...
       -  Aquilo no era raiva, e sim cime. Voc nunca saber quantas vezes esta "raiva" foi a nica coisa a mant-la distante de minha cama.
       -  Por que no me levou para a cama? Sabia quanto eu queria isso.
       - No, no sabia. Oh, sim, soube que teve uma paixo por mim em uma poca de sua vida, mas quando a vi com Wayne, quando voc me disse que o queria...
       - Pensei que voc estivesse me rejeitando. Tenho orgulho, sabe disso - comentou ela tristemente. - Voc me rejeitou tantas vezes...
       -  Para seu prprio bem. Como sua me me dissera, eu nada tinha a lhe oferecer.
       - Nada? - protestou ela de modo emocionado, os olhos cheios de lgrimas. - Voc tinha tudo. Era tudo para mim... Ainda .
       Ran a tomou nos braos e a beijou, enquanto ptalas brancas de rosas voavam ao sabor da brisa.
       - Parecem confete - murmurou ele suavemente quando por fim e com relutncia separou seus lbios dos de Sylvie. - Segundo a tradio, devamos nos casar na
capela privativa de Haverton Hall. Mas ela precisa ser restaurada e eu no posso esperar muito tempo. - Beijou-a novamente ao sussurrar: - Talvez nosso primeiro
filho possa ser batizado ali.
       Imediatamente Sylvie abriu os olhos.
       - Voc sabe... sobre isso? Voc... sentiu tambm?
       - Sim. Como pudemos ser to tolos, to cegos? Aquilo devia ter nos revelado. O que partilhamos naquela noite, o que criamos, apenas podia nascer de um amor
muito intenso.
       - Ainda no posso acreditar. H menos de uma hora achei que estaria me afastando de Haverton e de voc para sempre. O que o fez retornar?
       - Voc. Mollie falou comigo... Fez com que eu pensasse... enxergasse...
       -  Mollie? Mas ela no falou nada quando me telefonou. Oh, nem posso suportar pensar que quase nos separamos... No sei o que Lloyd dir quando eu lhe contar
que mudei de idia, que quero ficar em Haverton...
       -  Para sempre - complementou Ran.
       - Para sempre.
       - Vamos entrar. Quero abra-la.,. Fazer amor com voc. Mostrar-lhe quanto a amo. Quanto preciso de voc.
       Dez minutos mais tarde, deitada nos braos de Ran, ela traava-lhe o contorno do rosto.
       -  S houve voc em minha vida. Eu no podia suportar... No queria outro homem.
       -  E acha que foi diferente comigo? Sylvie arregalou os olhos.
       - Mas sempre havia algum a seu lado. Aquelas mulheres sofisticadas...
       -  Amigas. Mas no amantes. Oh, tive alguns encontros, mas no durmo com algum h muito tempo. No  to diferente assim para um homem, Sylvie, no quando
ele ama uma mulher do modo como eu amo voc. - Sorriu. - Ser menino ou menina?
       -  No sei. Sei apenas que ele, ou ela, ser fruto do nosso amor.
       - Iremos nos casar rpida e silenciosamente - comentou Ran. - Sua me no vai gostar disso.
       -  Eu gostaria de me casar em Otel Place. Foi onde nos conhecemos. E gosto muito deste quarto - acrescentou de modo sonhador. - Tem a sua cara.
       - Gosta mesmo? Fico feliz em ouvir isso, j que de agora em diante voc ir ver este quarto muitas vezes - disse-lhe de modo solene antes de tom-la nos braos
e beij-la com ternura.
       Eles se casaram cinco semanas depois, em Otel Place. Compareceram apenas familiares prximos e, claro, Lloyd.
       Alex a levou at o altar, e a me de Sylvie, felicssima em descobrir que a filha iria se casar com Ran, soluou.
       O filho de Alex e Mollie foi o nico a preceder a noiva, carregando as alianas com solene determinao. O vestido de Sylvie era em tons de creme e dourado.
       - Branco nunca me caiu bem - dissera a Mollie. - Alm do mais, no seria apropriado. Eu o amo tanto... Tenho de agradecer a voc por estarmos juntos.
       - Ora, no tente retribuir dando meu nome para essa criana - advertira-a a cunhada ao afagar com carinho a barriga de Sylvie.
       - Voc sabe? Mas como?
       - Percebi sua palidez durante o caf da manh, h alguns dias. Alm do mais... Bem, digamos que Ran esteja com um certo olhar especial. Ele a ama muito.
       Sylvie abandonou a terna divagao e pousou o olhar no marido, o corao batendo alegremente. Amava muito sua famlia, mas a nica pessoa com quem realmente
queria estar naquele momento era Ran.
       Em silncio aproximou-se do lugar onde ele conversava com Alex, enlaando seu brao e sugerindo suavemente:
       - Vamos para casa?
       -  Eu realmente acho que Haverton  minha construo favorita - confessou Lloyd.
       Ambos estavam na antecmara da pequena capela da famlia, onde o filho de Sylvie e Ran, afilhado de Lloyd, seria batizado.
       - Voc  assim com todas as propriedades - provocou-o ela.
       - No, Haverton  especial. Voc fez um belo trabalho aqui. Tem certeza de que no serei capaz de convenc-la a trabalhar de novo comigo? Vi um palcio na
Espanha...
       -  No. - Sylvie riu. - Tenho outro projeto com que me ocupar agora - lembrou-o, olhando com amor para o filho.
       O trabalho em Haverton fora finalizado a tempo do batizado de Rory. Talvez, em mais alguns anos, ela retomasse a carreira. Mas duvidava. Era a mentora oficial
da Trust em Haverton e tomar conta da manso seria mais do que estimulante.
       Mesmo antes de a casa ser oficialmente aberta, Sylvie j tinha reservas para casamentos durante todo o ano. Tambm havia agendado conferncias e festas.
       - Mesmo se voc tivesse conseguido fugir de mim - Ran lhe dissera na noite anterior -, mais cedo ou mais tarde eu veria Rory. E no instante em que pousasse
meus olhos nele, saberia que era meu, e ento...
       - E ento? - desafiara-o Sylvie.
       - E ento eu me recordaria de como veio ao mundo e daria um jeito de me tornar parte da vida dele e da sua.
       - Porque ele  seu filho?
       - Porque voc  minha mulher... meu amor... Algumas vezes, at mesmo naquele momento, ela no podia acreditar na sorte que tinha, em quo maravilhosa era
sua vida. Morar na Reitoria realizava seus sonhos de infncia. A casa era to parecida com o lar secreto que um dia imaginara...
       Mas no era, claro, seu lar que a fazia sentir-se to especialmente abenoada. Olhou com ternura para Ran. Se a Reitoria era o lar de seus sonhos, ele era
seu prncipe encantado.
       Ran era seu homem, sua alma gmea, sua vida. Sorriu discretamente. Rory tinha seis meses e Sylvie suspeitava de que, antes do segundo aniversrio, ele teria
um irmo. Ou uma irm.
       -  Por que voc est sorrindo? - Ran lhe perguntou ao aproximar-se dela, com Rory nos braos, e beij-la com ternura.
       - Lembra-se daqueles limoeiros que plantamos em Haverton para marcar o nascimento de Rory?
       - Claro.
       - Bem, voc se lembra de ter dito que plantaramos outros para marcar o nascimento de nosso segundo filho?
       - Lembro.
       - Bem, acho melhor voc encomendar algumas mudas...

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Penny Jordan                Amor de Perdio




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